Dustytoes/Pixabay
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De vegano a canibal

Plantas não podem fugir dos predadores, mas isso não quer dizer que elas não tenham mecanismos de defesa

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 03h00

Novidades na batalha entre presas e predadores. Entre animais, as presas adotam diversas estratégias, lutam, se escondem ou fogem. Gazelas correm dos leões, ratos entram na toca. As plantas têm menos opções. Não podem fugir, estão presas pelas raízes. A vaca abocanha o capim que não corre ou se esconde. Mas isso não quer dizer que plantas não tenham mecanismos de defesa.

Uma planta de tomate, quando mordida por uma lagarta, libera um composto chamado metil jasmonato (MJ). Volátil, o MJ se espalha pelo ar. Outros tomateiros detectam o MJ e respondem produzindo diferentes compostos químicos. É um sistema de comunicação com uma única mensagem: cuidado, uma colega de canteiro foi mordida. A utilidade dessa mensagem era desconhecida.

As lagartas que atacam os tomateiros são predadores vorazes, comem as folhas dia e noite. Aí formam o casulo de onde saem borboletas. 

Se você tirar as lagartas do tomateiro e colocá-las em um frasco sem folhas ficam desesperadas. Mais cedo ou mais tarde uma mordisca a vizinha, que começa a vazar uma gosma branca apetitosa. Isso basta para elas iniciarem um processo de canibalismo feroz. Uma come a outra e todas acabam mortas.

Será que a mensagem metil jasmonato teria algo a ver com o canibalismo das lagartas? Os cientistas responderam com dois experimentos. Borrifaram grupos de tomateiros com doses crescentes de MJ. 

Dias depois colocaram nos tomateiros um número fixo de lagartas. E voltaram dias depois para ver o que tinha acontecido. 

O resultado é simples. Os tomateiros que não haviam sido tratados com MJ estavam devorados e as lagartas gordas. Os tomateiros borrifados haviam sido menos atacados. Quanto maior a dose de MJ menor o estrago feito pelas lagartas. Mas o que chamou a atenção é que nos tomateiros borrifados o número de lagartas era menor. Restos de lagarta espalhados no local sugeriam que elas haviam sido devoradas pelas sobreviventes.

Para testar essa hipótese, os cientistas colocaram uma mesma quantidade de folhas de tomateiro em dois potes. Em um colocaram folhas tratadas com MJ; em outro, folhas não tratadas. Também colocaram nos potes um número fixo de lagartas mortas. Finalmente colocaram em cada pote lagartas vivas. E voltaram dias depois para ver o resultado. 

Nos potes com folhas de tomateiros sem tratamento com MJ, as lagartas vivas haviam comido as folhas e desprezado os cadáveres. Nos potes com folhas borrifadas com MJ, as lagartas não haviam comido as folhas, mas sim as colegas mortas. Podendo escolher entre folhas tratadas com MJ e suas colegas, as lagartas deixaram de ser vegetarianas e se transformam em canibais.

Conclusão. O que deve ocorrer na natureza é que as lagartas comem a primeira planta no canteiro, o MJ é liberado e avisa as outras plantas que tem lagarta por perto. Os tomateiros avisados sintetizam compostos que as lagartas odeiam. 

Quando as lagartas trepam nos tomateiros avisados passam fome e comem umas às outras. Presa vence predador.

MAIS INFORMAÇÕES: INDUCED DEFENCES IN PLANTS REDUCE HERBIVORY BY INCREASING CANNIBALISM. NATURE ECOLOGY & EVOLUTION DOI:10.1038/S41559-017-0231-6 2017

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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