Dilma pede ao papa compreenda as ‘opções diferenciadas das pessoas’

Presidente diz que novo papa não deve ter posições revolucionárias em relação a temas como casamento homossexual ou aborto e elogia preocupação de Francisco com os pobres, mas ressalta que apenas isso ‘não é suficiente’

Jamil Chade, enviado especial de O Estado de S. Paulo

18 Março 2013 | 22h40

ROMA - A presidente Dilma Rousseff pediu nesta segunda-feira, 18, ao papa Francisco que compreenda as "opções diferenciadas das pessoas" e alertou que apenas cuidar dos pobres não é suficiente. Hoje, o Vaticano realiza a cerimônia de entronização do novo papa, num evento para mais de 150 autoridades e transmitido para todo o mundo (mais informações à página A14). Nas ruas de Roma, 1 milhão de pessoas estão sendo esperadas.

Dilma desembarcou em Roma com uma ampla delegação, justamente para demonstrar a importância da Igreja para o País. "É uma postura importante, um papa preocupado com a questão dos pobres no mundo", disse a presidente, ao sair de uma visita a um museu em Roma, referindo-se ao discurso de Francisco de combate à pobreza. "Ele tem um papel especial", acrescentou, apontando que esses foram alguns dos princípios básicos que inspiraram o cristianismo.

Mas alertou: "É claro que o mundo pede hoje, além disso, que as opções diferenciadas das pessoas sejam compreendidas". Cuidadosa para não ferir nenhum grupo de eleitores e apoio - nem evangélicos, nem gays, nem católicos, nem defensores do aborto -, Dilma não explicou sua declaração. Mas ela foi interpretada como uma alusão a temas polêmicos para a Igreja, como a expansão de igrejas evangélicas, o aumento do secularismo na sociedade, homossexualismo, aborto e até o uso de preservativos.

A relação entre o governo de Dilma Rousseff e a Igreja tem sido marcado por atritos. Semanas antes de sua eleição, em 2010, a campanha de Dilma foi surpreendida por uma declaração do papa Bento XVI aos bispos do Maranhão contra alguns dos pontos defendidos pela então candidata. Outro ponto que tem irritado o governo é a decisão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de fazer declarações sobre temas como o Código Florestal, leis no Congresso e pontos como o homossexualismo, aborto e outros temas. Nos bastidores, cardeais têm se queixado da posição do governo em relação à Igreja.

Dilma, porém, admite que o argentino não deve ter posições revolucionárias em relação a temas como casamento entre pessoas do mesmo sexo ou aborto. "Não me parece que seja um tipo de papa que vai defender esse tipo de posição", disse.

Na terça-feira, 19, ela estará na cerimônia de entronização do papa Francisco, ao lado de 150 autoridades de todo o mundo. A previsão é de que a presidente faça parte da fila de cumprimentos ao pontífice após a missa e os dois troquem algumas palavras. Francisco deve convidar Dilma para a Jornada Mundial da Juventude, organizado pela Igreja, que ocorrerá no Rio de Janeiro, em julho. Dilma ainda não confirmou sua participação.

Outro ponto que não deixa de irritar Dilma é a possibilidade de que o brasileiro Odilo Scherer fosse considerado como um dos favoritos no conclave. Questionada nesta segunda sobre o que ela achava de um papa brasileiro, Dilma não disfarçou sua irritação. Depois de um breve silêncio, apenas respondeu: "Acho essa pergunta um pouco estranha", disse. "Ele (o papa Francisco) é latino-americano", insistia. "Acho que é uma afirmação da região."

No governo, a eventual eleição de Scherer era vista com desconfiança e até certa preocupação. Além de posições contrárias a algumas das políticas do governo, Scherer seria alguém que acabaria sendo ouvido para todos os temas domésticos e acabaria influenciando a agenda interna.

Dilma, apesar de estar em Roma, fez questão de declarar que o País não é apenas católico, já de olho no fato de que parte de seu governo tem na base os movimentos evangélicos. A presidente também comentou o comportamento da Igreja durante a ditadura na América Latina, um ponto delicado para Francisco. "Acho que a Igreja brasileira foi extremamente combativa contra a ditadura em geral", disse, afirmando que se lembrava em especial da ação dos dominicanos.

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