Escavações revelam segredos ocultos em Teotihuacán, México

Enterrados há mais de 1,8 mil anos, cerca de 50 mil artefatos cerimoniais foram encontrados no túnel de Quetzalcoatl

Fábio Vendrame, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2014 | 19h46

Segredos ocultos há mais de 1,8 mil anos em uma das grandes pirâmides de Teotihuacán, a "cidade onde os homens se transformam em deuses", vêm sendo pouco a pouco descobertos por arqueólogos mexicanos.

Escavações no túnel de Quetzalcoatl, a mitológica Serpente Emplumada cultuada pelos povos ameríndios nos territórios norte e centro-americanos, revelaram a existência de mais de 50 mil artefatos cerimoniais.

"São descobertas extraordinárias, que nos permite avançar em teorias e rever conceitos sobre Teotihuacán", disse o arqueólogo Sergio Gómez Chávez, coordenador do projeto Tlalocan, Caminho Debaixo da Terra. "Fica comprovada a importância ritual do mundo subterrâneo, o 'inframundo', para as antigas civilizações. Possivelmente, ali eram realizados ritos de passagem de poder, como a ordenação de um novo governante. Mas isso ainda precisa ser investigado."

Os primeiros resultados dos trabalhos estão sendo divulgados em um simpósio sobre o tema organizado pelo Instituto Nacional de História e Arqueologia do México (Inah), no Museu Nacional de Antropologia, na capital mexicana. As descobertas ajudam a elucidar o modo de vida dos ancestrais e, ao mesmo tempo, também lança outros desafios a historiadores e arqueólogos.

A existência de um túnel no Templo de Quetzalcoatl, no coração de Teotihuacán, a cerca de 50 quilômetros ao norte da Cidade do México, foi identificada em 2003. Desde então, arqueólogos passaram a investigá-lo sistematicamente utilizando tecnologias de ponta, com scanner a laser, georradares e dois robôs, batizados de Tlaloc I e Tlaloc II, desenvolvidos por Hugo Guerra, um estudante de mecatrônica do Instituto Politécnico Nacional. Na mitologia asteca, Tlaloc é o deus da chuva.

O caminho subterrâneo tem 102 metros e 42 centímetros de extensão e o acesso ao túnel começa a 15 metros de profundidade e avança três metros mais abaixo, revelando três recintos ao fundo onde foram encontradas as oferendas rituais. No total, a equipe contabilizou mais de 50 mil objetos. Há esculturas, peças de cerâmica, pedras de jade, conchas marinhas, sementes, bolas de borracha, ossadas humanas e de animais, como aves e felinos.

Durante os trabalhos de escavação foram removidas cerca de 950 toneladas de terra manualmente. Exames feitos com carbono 14 para determinar a data da passagem subterrânea revelaram que ela foi concebida no início da era cristã e foi utilizada até meados dos anos 250 d.C.

"Antes de ser fechado definitivamente pelos próprios teotihuacanos, há 1,8 mil anos, foram erguidos 18 muros para interditar a passagem subterrânea temporariamente. Tempos depois, outra geração de nativos voltou a utilizar o local, motivados talvez por mudanças políticas e religiosas ocorridas na cidade", afirmou Gómez.

Agora, além do minucioso trabalho de análise e arquivamento das peças encontradas, a equipe espera ir além: eles acham que estão perto de alcançar câmaras mortuárias que pertenceriam a grandes governantes de outrora.

Se confirmada a teoria, pode haver ali restos mortais e pertences incalculáveis da alta hierarquia. "É apenas uma hipótese", ressaltou Gómez. "Mas esperamos que se comprove." Ainda há pedras com mais de dois metros de espessura e grande quantidade de terra a ser removida dos três recintos onde foram encontradas as oferendas.

A cidade. Teotihuacán é uma das maiores cidades pré-hispânicas já encontradas. Estima-se que em seu auge tenha abrigado mais de 100 mil moradores fixos. Suas construções espalham-se por aproximadamente 20 mil quilômetros quadrados - parte delas, como os Templos do Sol e da Lua e a Avenida dos Mortos, está aberta ao turismo.

Além da existência do túnel por si só, a grande variedade das oferendas também deixou os arqueólogos entusiasmados. Há objetos trazidos de regiões distantes de Teotihuacán, caso das enormes conchas marinhas características do Golfo do México e do Caribe, além das peças de jade provenientes da Guatemala e das bolas de borracha elaboradas nas zonas tropicais centro-americanas.

"São indícios que evidenciam tanto o caráter ritual e sagrado do lugar, onde as pessoas acudiam para depositar suas ofertas, como o fluxo comercial entre as distintas cidades-Estado que floresceram na região", destacou o arqueólogo Jorge Arturo Zavala, integrante do projeto. Desde olmecas até astecas, diferentes culturas povoaram os territórios de México, Guatemala, Honduras, Belize, El Salvador e Nicarágua, dentre as quais se destaca a cultura maia.

Zavala acredita que a maneira como o túnel foi concebido - com duas câmaras intermediárias e uma abóbada a meio caminho, em um traçado sinuoso a imitar o movimento da serpente, que se prolonga por dois níveis de profundidade até alcançar o lençol freático - ajuda a narrar a visão de mundo prevalecente em Teotihuacán.

"O culto a Quetzalcoatl (a Serpente Emplumada, uma das divindades mais poderosas na América pré-hispânica, chamada de Kukulcán pelos maias), ser mitológico ligado à vida e à morte, a água jorrando do solo, o céu representado pela abóbada, todos esses são elementos que reconstituem no inframundo a paisagem ritual sagrada dos mitos de criação daquele povo."

Um dentre os diferentes mitos de criação das culturas originárias da América diz que, depois de mil anos, o mundo foi destruído por uma grande inundação, da qual apenas uma família se salvou e a ela coube repovoar a terra. Toltecas, astecas e incas também têm versões parecidas ao dilúvio bíblico. / COM EFE

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