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Expedições traçam perfis da biodiversidade aquática

Agencia Estado

06 Março 2002 | 16h 25

Dois grupos multidisciplinares de pesquisadores, coordenados pela Conservation International do Brasil (CI), e uma equipe ligada ao Centro de Pesquisa e Gestão dos Recursos Pesqueiros da Região Norte do Brasil (Cepnor-Ibama) estão em campo - ou melhor na água - coletando amostras de espécies animais e vegetais e avaliando as condições dos ambientes onde elas vivem, na tentativa de preencher lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. As equipes coordenadas pela CI realizam um inventário de fauna e flora na porção norte do Pantanal, nas bacias dos rios Sepotuba, Cabaçal, Jauru, Juba e Paraguai. Saíram de Cáceres, no Mato Grosso, no último dia 26 de fevereiro e devem retornar no próximo dia 12. Num balanço parcial, contabilizam, até agora, só na equipe a bordo do barco, no Sepotuba, 122 espécies de peixes, 5 crustáceos, 129 aves e 240 plantas coletadas, com a análise das características fisico-químicas da água em 32 pontos diversos. A outra equipe do AquaRAP percorre as cabeceiras dos rios menores, onde o contato é difícil. Mas eles já reportaram, por exemplo, a coleta de uma espécie de lambari, bem pequeno (2cm), provavelmente endêmico, que tem fertilização interna, o que não é muito comum entre os peixes. Entre outras boas notícias para a Ciência, eles também encontraram uma espécie nova de peixe, do gênero Leporino, uma espécie nova de anfíbio, do gênero Hyla e uma serpente desconhecida, cujo gênero ainda não pode ser identificado. Além disso, foram notificadas várias espécies amazônicas, que nunca haviam sido vistas tão ao sul como uma orquídea do gênero Cattleya, de flores grandes e roxas, bem maiores do que as orquídeas do típicas do Pantanal. A expectativa dos pesquisadores é identificar as conexões entre a biodiversidade da Amazônia, Cerrado e Pantanal. "Pelo que vimos até agora existem interdigitações da biodiversidade da Amazônia no Pantanal, sobretudo nos elementos de vegetação e entre anfíbios, répteis e aves", avalia Reinaldo Lourival, da Conservation International do Brasil. "Entre os peixes parece menor a influência amazônica, demonstrando uma evolução diferenciada entre as bacias do Paraguai e do Amazonas". Águas profundas Já na expedição do Cepnor-Ibama, o balanço é bem diferente, uma vez que as estratégias e objetivos também divergem. Os pesquisadores saíram de Belém com destino a Manaus, no último dia 28 de fevereiro e retornam a Belém, no próximo dia 19 de março, depois de percorrer cerca de 3 mil quilômetros pelo rio Amazonas e alguns de seus afluentes, a bordo do navio Almirante Paulo Moreira. A expedição levanta dados sobre as espécies de peixes, sedimentos, plantas e qualidade da água e também coleta fito e zooplâncton, pequenos organismos, que estão na base da cadeia alimentar. As coletas são complementadas por informações colhidas em terra, em 10 localidades onde o barco vai parar: Breves, Gurupá, foz do rio Xingu, Almeirim, Prainha, foz do rio Tapajós (Santarém), Óbdos, Parintins, Itacoatiara e Manaus. Com isso, pretende-se estabelecer um plano para uso racional dos recursos naturais do Amazonas e suas várzeas. Por enquanto, já foram realizadas 5 paradas para coletas, com a captura de 20 espécies de peixes e uma grande quantidade de fito e zooplâncton. Segundo contou à Agência Estado o coordenador da expedição, Mutsuo Asano Filho, do Cepnor, as características físico-químicas da água não mudam muito no leito principal do rio Amazonas. "Contudo, quando se entra em igarapés e lagos, o ambiente muda significativamente, proporcionando o aparecimento de espécies peculiares", disse. A estação de coleta com maior detalhamento, até agora, foi a de Arapaima, onde foram realizadas análises na várzea, no rio e em igarapés, com diferenças evidentes na água, nos sedimentos e na composição de espécies. A expectativa é que estas diferenças fiquem mais evidentes a partir de Santarém, com maior diversidade também entre os ecossistemas a serem visitados. As coletas em um rio tão volumoso como o Amazonas dependem de técnicas muito diferentes das usadas em rios pequenos e nascentes, como as malhadeiras e puçás da expedição Sepotuba. As redes são de arrasto, alcançando profundidades de até 40 metros e a escolha dos pontos para lançamento das redes depende do conhecimento tradicional, de um prático da região. As informações obtidas através das coletas e análise da água são complementadas por entrevistas com ribeirinhos. Por enquanto, a expedição do Amazonas visitou 5 comunidades - Breves, Gurupá, Arapaima, Almeirim e Prainha - todas no Pará. As reclamações mais freqüentes são relativas à pesca predatória de peixes de pequeno porte. Em geral, estes peixes são colhidos em redes de arrasto por barcos industriais e depois jogados de volta, já mortos, nos rios ou nas margens, o que diminui a disponibilidade de pescado para os ribeirinhos e desestabiliza as populações de peixes.

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