Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

Família de d. Odilo encara ansiedade com bom humor

No interior do Paraná, irmãos do cardeal brasileiro se organizam para atender a mídia e brincam com a expectativa, que tomou conta da cidade

Ocimara Balmant, Enviada especial,

12 Março 2013 | 00h10

TOLEDO (PR) - Basta chegar perto de alguém com o bloquinho de anotações na mão que a pergunta é feita antes mesmo que a repórter se apresente. "Ah, você também quer falar da eleição do papa?". Em Toledo, cidade em que d. Odilo Scherer cresceu, foi ordenado padre e, depois, bispo, não se fala de outro assunto. E nem é possível.

Desde que o nome do cardeal brasileiro passou a figurar na lista dos papáveis, a imprensa lotou os poucos hotéis do pequeno município paranaense, de 120 mil habitantes, localizado quase na divisa do País com o Paraguai. "Recebi até jornalistas gringos que vieram com tradutor me entrevistar", conta um dos irmãos, Flávio Scherer, de 67 anos.

Em sua casa, a mesa da sala de jantar foi tomada por recortes de jornal, fotos antigas e até cartas escritas nos anos 1970 pelo então seminarista Odilo Pedro Scherer. Tudo à disposição da imprensa, que é avisada logo na chegada que o material pode ir via e-mail. A filha de Flávio, Ana, já digitalizou tudo e é responsável por suprir os meios de comunicação com todo o arquivo, caso seja confirmada a eleição do primeiro papa brasileiro. No fim da tarde de sábado, a equipe do Estado foi a terceira a conversar com a família, que emigrou do Rio Grande do Sul para fixar residência no Paraná na década de 1950.

A conversa se inicia num clima de cautela em relação ao conclave. O discurso é de que não se pode prever quem Deus terá de fato escolhido para ocupar o cargo de sucessor de São Pedro. No fim, porém, uma sequência de brincadeiras mostra que por ali estão todos muito esperançosos. "Se acontecer essa eventualidade de meu irmão virar papa, minha mãe se levanta do túmulo", brinca Lotário, outro irmão, de 65 anos, dois a mais que d. Odilo.

Seria quase uma recompensa pelo "desgosto" que os outros oito filhos homens causaram a dona Francisca. Todos eles foram para o seminário, mas só d. Odilo se tornou sacerdote. "Ela iria ficar feliz de saber que, apesar de só um ter seguido a vocação, foi tão longe que valeu por todos", acrescenta Lotário. Após abandonar o seminário, Lotário se formou em Medicina e teve o prazer de ter o irmão como celebrante de seu casamento.

Na despedida, aviso que telefonarei assim que o nome do novo pontífice for anunciado. Flávio responde: "Atenderei com prazer, desde que a operadora de celular funcione. Está falhando tanto nos últimos dias que acho que terei de reclamar para o papa."

O clima em Toledo é exatamente assim. Para quem mora na cidade, o papado saiu de Roma e está ali, na casa de todo mundo. Na de Raquel Bortolotto, por exemplo, uma foto tirada há 27 anos é exibida como joia rara. "Você consegue imaginar o que é ter sido batizada por um papa?", pergunta. Na segunda-feira de carnaval, 11 de fevereiro, ela seguia um trio elétrico em Salvador quando seu celular tocou. Era sua mãe, Ilse, já com a notícia devidamente contextualizada: "Bento XVI renunciou e, prepare-se, porque o padre que te batizou será o futuro papa".

A mãe de Raquel não acha que tenha sido precipitada. "O resto do País pode ter começado a pensar em d. Odilo apenas nos últimos dias, mas eu já tinha feito todos os cálculos e sabia que agora seria a hora de termos um papa brasileiro. Estou rezando todas as noites por isso."

Aluna de d. Odilo na faculdade de Filosofia, Ilse vibra com a trajetória do antigo mestre. E, a partir do contato que teve com o cardeal, faz um "parecer técnico" sobre suas chances. "Ele sempre foi muito rigoroso, perfeccionista e determinado. Quando se propõe a fazer algo, vai até o final. E é disso que a Igreja precisa nesse momento de tantos problemas, não é? Na verdade, sinto um misto de orgulho e pena, pois ele nunca mais vai ter sossego."

Católica, a filha Raquel - que na adolescência chegou a fazer uma experiência de uma semana em um convento, mas desistiu de ser freira - já está com o lugar no ônibus reservado para ir à Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em julho. Ela sonha em chegar pertinho do próximo papa e repetir a frase que sempre dizia, quando criança, ao encontrar d. Odilo: "Sabia que eu fui batizada pelo senhor?"

Se na boca do povo o papa já é brasileiro, o padre da Catedral Cristo Rei, onde d. Odilo foi pároco nos anos 1980, contém a euforia. Na missa do domingo, Inácio Scherer, primo de d. Odilo, explicou que tem sido procurado pela imprensa de todo o mundo, mas, como alguém que parece se sentir menos autorizado a se entusiasmar, pediu paciência e oração aos fiéis que lotavam o templo. "Ele é meu primo irmão, mas isto não significa nada. O importante é que o novo papa esteja a serviço da Igreja. Rezem por aquele a quem o Espírito Santo escolheu, não interessa quem seja."

Até parece que alguém vai seguir o conselho. Ao fim da missa, seu Rafael Lunelli, de 81 anos, já ignorava a recomendação. "Padre Odilo é jovem, inteligente e tem muita saúde. É a pessoa certa para a função", dizia ele, que no fim dos anos 1970 estava presente na primeira missa celebrada por d. Odilo. É essa proximidade que faz seu Rafael, e toda a população da cidade, chamar "apenas" de padre o cardeal que pode ser o próximo papa.

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