Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Felicidade traz dinheiro?

E propõem que existem duas felicidades, a de longo e a de curto prazo. A de curto prazo seria nossa percepção do dia anterior.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 03h00

Ninguém gosta de admitir, mas agimos como se o dinheiro comprasse a felicidade. Aí o prêmio Nobel de economia foi dado a Angus Deaton. Logo ele, que estudou a relação entre dinheiro e felicidade. Não resisti. Será que a ciência demonstrara que o dinheiro compra mesmo a felicidade?

Meus pais me disseram que eu devia fazer o que gostasse. Isso me traria felicidade. Sucesso e dinheiro seriam a consequência de algo feito por uma pessoa feliz. Por essa lógica é a felicidade que traz o dinheiro. Foi com essa questão na cabeça que deitei com o artigo de Kahneman e Deaton (ambos prêmio Nobel).

Eles começam com a pergunta óbvia. O que é felicidade? E propõem que existem duas felicidades, a de longo e a de curto prazo. A de curto prazo seria nossa percepção do dia anterior. Ontem eu sorri? Me senti alegre? Estive com pessoas de quem eu gosto? Matei minha fome alimentícia e sexual? A segunda felicidade é a de longo prazo. Olhando a minha vida, tudo o que vivi desde as minhas primeiras memórias, ela foi uma vida feliz? Poderia ter sido melhor? Na felicidade de curto prazo o ontem é o que importa, na de longo prazo é todo o passado que importa.

Definir as felicidades é fácil, mas como medir? Já que não é possível tirar uma gota de sangue e medir a quantidade de cada felicidade, a solução é perguntar às pessoas. Essa escolha já assume que a felicidade é algo subjetivo, o que me deixou feliz. Estava com medo de me deparar com algum “proxy” físico para esse estado mental, do tipo, vamos usar o número de calorias ingeridas ou o número de eletrodomésticos como um proxy para a felicidade.

Kahneman e Deaton usaram os dados coletados pela Gallup entre 2008 e 2009. Foram entrevistadas 450 mil pessoas nos EUA. Na pesquisa, as pessoas eram perguntadas sobre os sentimentos que tinham vivido no dia anterior. Além disso eram perguntadas sobre sua vida como um todo. Nesse caso o entrevistador pedia à pessoa que imaginasse sua vida como uma escada de 10 degraus, o primeiro representando a pior vida que a pessoa pudesse ter vivido e o décimo a melhor. A pessoa escolhia o degrau. Também eram perguntadas renda familiar e outras informações - saúde, nível educacional etc.

A análise é impressionante. Na felicidade de curto prazo, saúde, interações familiares, solidão e fumo têm alta correlação com o nível de felicidade. Fumantes solitários que se sentem descuidados e têm problema de saúde são os típicos infelizes de curto prazo. Dinheiro é menos importante. Já dinheiro e educação são marcadores dos felizes de longo prazo. Uma pessoa pode ser feliz todos os dias pois tem saúde, é acolhida, não fuma e não é solitária, mas, quando perguntada sobre felicidade de longo prazo, pode se considerar infeliz pois não tem educação ou dinheiro. Falta de educação e dinheiro aumentam a infelicidade associada à saúde precária e à solidão. Ou seja é possível ser feliz todos os dias e achar que a vida toda é uma merda.

A conclusão do estudo é que renda familiar alta compra satisfação com a vida no longo prazo, mas não compra a felicidade do dia a dia. Já a baixa renda é associada a uma baixa felicidade no dia a dia e a uma avaliação pior da vida no longo prazo.

Depois de ter digerido esse estudo voltei à minha dúvida: será que o dinheiro é que traz a felicidade ou é a felicidade que traz o dinheiro? Como é de se esperar, Kahneman e Deaton não entram na seara da causalidade. Eles apontam correlações. Correlação e causalidade são conceitos distintos. O número de cegonhas, por exemplo, que sobrevoa a Holanda por ano é correlacionado com o de nascimentos de crianças: aumentam na primavera, tem um pico no verão e caem no inverno. Nem por isso o nascimento das crianças é causado pela passagem das cegonhas. Do mesmo modo o fato de haver uma correlação complexa entre felicidade e dinheiro não demonstra que dinheiro traz felicidade ou que felicidade traz dinheiro. Assim, sem uma resposta, decidi continuar a educar meu filho como fui educado. Procure a felicidade que o dinheiro vem como consequência.

MAIS INFORMAÇÕES: HIGH INCOME IMPROVES EVALUATION OF LIFE BUT NOT EMOTIONAL WELL-BEING. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA VOL.107 PÁG. 16489 (2010)

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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