Há dúvida sobre destino do projeto após evento

Governo brasileiro deu R$ 33 milhões para os testes clínicos; Nicolelis não disse o que fará com o robô depois da Copa

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

01 Junho 2014 | 05h00

SÃO PAULO - Uma crítica que ronda o projeto Andar de Novo nos bastidores da comunidade científica é que Miguel Nicolelis, apesar de ser brasileiro, não representa a ciência brasileira, já que suas pesquisas são desenvolvidas majoritariamente nos Estados Unidos, com dinheiro americano; e o exoesqueleto, apesar de ter sido pago com dinheiro brasileiro, foi todo desenvolvido e construído fora do País. 

Glauco Arbix, presidente da Finep, rebate a crítica, argumentando que o que mais importa é o cérebro de quem concebe o projeto, e não onde suas peças são construídas. “Seria o mesmo que dizer que um avião da Embraer não é brasileiro porque seus motores são fabricados pela GE (nos Estados Unidos)”, compara. “É um projeto da ciência brasileira, sem dúvida. Estamos na fronteira da geração do conhecimento, e isso é o que importa. Há pouquíssimas áreas no Brasil que podem dizer, e essa é uma delas.”

O projeto Andar de Novo existe desde 2004. O convênio de R$ 33 milhões com a Finep, destinado especificamente à construção do protótipo do exoesqueleto que será demonstrado na Copa, foi assinado em dezembro de 2012 e termina agora, em junho. 

Nicolelis não informou o que pretende fazer com o exoesqueleto depois da Copa: se ele continuará a ser desenvolvido no Brasil ou será levado para o seu laboratório nos Estados Unidos. Também não informou se os pacientes que participaram dos testes na AACD continuarão a ter acesso à tecnologia nas próximas etapas do projeto. Nem explicou por que optou por montar um novo laboratório em São Paulo, em vez de realizar os testes em seu Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), que é a instituição de referência para sua produção científica no Brasil, citada em todos os seus trabalhos.

O valor investido na construção do protótipo chama a atenção pela grandiosidade. É três a dez vezes mais do que qualquer um dos 37 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) da área da saúde receberam do CNPq nos últimos cinco anos, por exemplo. E R$ 13 milhões maior do que o último edital lançado pela Finep para o desenvolvimento de tecnologias de auxílio a deficientes (de R$ 20 milhões), que deverá beneficiar dezenas de projetos em todo o País.

“Não tem como fazer ciência de fronteira sem uma grande massa de investimento. Pesquisa de ponta custa caro, não tem jeito”, defende o ministro de Ciência e Tecnologia, Clelio Campolina Diniz. 

Futuro. A expectativa, segundo Arbix, é que o desenvolvimento tecnológico e industrial do exoesqueleto ocorra no Brasil, liderado por empresas brasileiras. “Esse ponto da continuidade é muito importante. Temos uma oportunidade muito grande, não só de nos consolidarmos como um polo científico, mas também de abrir portas para uma série de segmentos industriais.” O protótipo, diz ele, “é apenas o primeiro passo numa caminhada que ninguém andou até agora”.

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