Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Habitantes da interface

Nos espalhamos por somente 20% da superfície do planeta, ou seja, 102 milhões de km²

Fernando Reinach*, colunista

03 Fevereiro 2018 | 06h00

O Homo sapiens habita a superfície de um único planeta, precisamente na interface entre a parte sólida e a gasosa. Isso não mudou desde que surgimos na Terra. É verdade que hoje existem pessoas navegando na interface gás/líquido, mergulhando na parte líquida, cavando minas na parte sólida e viajando na parte gasosa. Mas são atividades transitórias. 

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Mais de 99,99% das pessoas que já habitaram o planeta passaram a vida em uma fina casca que envolve a Terra, parte solo, parte ar. Essa casca tem no máximo 100 metros de espessura - começa nos mais profundos subsolos e termina no alto dos edifícios. É nosso hábitat.

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A Terra é uma esfera com um raio de 6.400 quilômetros e sua superfície tem uma área de 510 milhões de quilômetros quadrados. Entretanto, 70% dessa área é coberta por oceanos e somente 30% é terra firme. Desses 30%, boa parte é coberta permanentemente por geleiras e desertos. O fato é que nós nos espalhamos por somente 20% da superfície do planeta, ou seja, por 102 milhões de quilômetros quadrados. 

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Multiplicando essa área pela grossura da casca em que vivemos (100 metros) é fácil concluir que o hábitat do ser humano se restringe a aproximadamente 10 milhões de quilômetros cúbicos. Pode parecer muito, mas como o volume do planeta é de 1 trilhão de quilômetros cúbicos (ou mais, se incluirmos a atmosfera), ocupamos somente 0,001% do volume do planeta, uma fina interface na superfície de um único e pequeno planeta.

O volume disponível ao homem não aumentou com todo o desenvolvimento cultural e tecnológico. Já pisamos na Lua e sonhamos com colônias em Marte, mas nada indica que uma fração significativa da humanidade vai sair da Terra no futuro. Na verdade, o que vem ocorrendo é o contrário: os sonhos de morar na Lua, ou mesmo de construir estações espaciais, estão se tornando mais distantes, não porque seja impossível, mas porque é muito caro e sempre existem projetos melhores por aqui mesmo para usar o dinheiro. Na Terra, construímos edifícios, barcos e aviões cada vez maiores, nos movemos rapidamente e nos comunicamos de forma instantânea. Extinguimos doenças, ficamos mais ricos e menos violentos. Mas nada disso alterou os 10 milhões de quilômetros cúbicos que dispomos para viver.

A razão para vivermos nessa interface é simples. Precisamos do ar que respirarmos e da água doce que se acumula sobre o solo e escorre pelos rios. E todo nosso alimento, basicamente algumas plantas e animais, dividem conosco esses mesmos 10 milhões de quilômetros cúbicos (claro que os peixes têm mais volume à disposição). Para sair daqui o problema é sempre o mesmo: ar, água e comida.

Mas o desenvolvimento tecnológico, o uso dos estoques de riquezas naturais e o aumento brutal do número de humanos estão modificando rapidamente esse 10 milhões de quilômetros cúbicos. E essa alteração está se espalhando pelo restante do planeta. Lá embaixo os aquíferos estão sendo poluídos e lá em cima a camada de ozônio foi reduzida. Esse minúsculo e único volume de toda a galáxia em que vivemos está se modificando. Se as condições desses 10 milhões de quilômetros cúbicos mudarem significativamente, nós desapareceremos, e nada vai mudar no universo. Afinal, são só 10 milhões de quilômetros cúbicos.

Faz todo o sentido cuidarmos bem desses 10 milhões de quilômetros cúbicos. Hoje somos 7 bilhões de seres humanos, mas até 2050 se acredita que a população se estabilizará em 10 bilhões de pessoas. Faça a conta: seremos 1 mil pessoas para cada quilômetro cúbico.

Por esse motivo é bom você se associar a outras 999 pessoas e começar a se interessar por algum quilômetro cúbico. Ou, se preferir, pode cuidar do seu 1 milhão de metros cúbicos, o que equivalente a 10 quadras de São Paulo e o ar dos primeiros 100 metros de altura. Só assim nossa espécie vai sobreviver.

Nota

Semana passada errei na conta. Escrevi que a área reflorestada na China equivale a área de Alagoas. Na verdade, é dez vezes maior, equivale a área do Estado de São Paulo! Obrigado, leitores.

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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