Hospital vai testar uso de coração artificial; produto custará R$ 60 mil

Aparelho é nacional e foi desenvolvido por pesquisadores de São Paulo

Fernanda Bassette - O Estado de S.Paulo,

11 Abril 2012 | 23h21

O Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, vai começar a testar em humanos um coração artificial totalmente nacional, desenvolvido pela equipe de bioengenharia do próprio hospital.

O projeto de desenvolvimento do aparelho começou em 1998 e foi idealizado pelo engenheiro Aron José Pazin de Andrade, responsável pelo centro de bioengenharia do instituto.

Em 2004, a equipe iniciou os testes em bezerros. Com os bons resultados, no ano passado o grupo pediu autorização para o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes em humanos.

A pesquisa foi liberada e, num primeiro momento, será realizada em cinco pacientes. A ideia é que o aparelho seja usado em doentes com cardiopatias graves, que estão na fila do transplante de coração, não respondem mais ao tratamento com drogas e correm risco de morte.

O coração artificial não substituirá o órgão natural e funcionará como um auxiliar ao coração doente, para que o paciente consiga esperar pelo transplante em melhores condições clínicas.

"A gente criou um dispositivo para ser um auxiliar ao coração porque, se o aparelho falhar, o paciente ainda terá o seu coração funcionando e terá tempo de ser socorrido", diz Andrade.

O coração artificial foi feito para ser implantado no paciente e conectado ao coração natural. Ele funciona com uma bateria que fica presa ao corpo, do lado de fora, e que precisa ser trocada a cada duas horas.

Os primeiros cinco pacientes, no entanto, não terão o aparelho implantado. Por questões de segurança, eles ficarão internados e o dispositivo ficará preso do lado de fora do corpo para poder ser monitorado pela equipe.

"Estamos em teste e as pessoas não têm experiência com esse aparelho. Por isso, todo cuidado é necessário e vamos monitorá-lo 24 horas", explicou Jarbas Dinkhuysen, chefe do setor de transplante do hospital e investigador principal do projeto.

Consagrado. O uso de coração artificial em pacientes graves já é consagrado em vários lugares do mundo. Há casos de pacientes que vivem com o aparelho há oito anos e que se adaptaram tão bem que não querem mais ser transplantados.

Segundo Dinkhuysen, até hoje o maior impeditivo para o Brasil usar esse tipo de aparelho era o preço - um coração artificial importado chega a custar cerca de R$ 500 mil e o produto nacional vai custar em torno de R$ 60 mil.

"É uma tecnologia amplamente difundida, mas o Brasil está muito atrasado. O problema é que o custo desse aparelho era proibitivo", diz Dinkhuysen, acrescentando que a intenção do projeto é baratear o custo do aparelho nacional para que o SUS passe a indicar o seu uso com mais frequência.

Não há risco de rejeição - o risco que existe é o de coagulação do sangue dentro do aparelho, o que será controlado com medicação anticoagulante diariamente.

Segundo Reginaldo Cipullo, cardiologista clínico do setor de transplantes, hoje há 99 pacientes na fila do transplante em todo o Estado, sendo 37 na capital. "O índice de morte na fila de espera é de 55%. Desses 55%, o aparelho seria útil para cerca de 80%. O aparelho fará a fila de transplante cair. Será um benefício enorme para a sociedade."

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