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Indígenas têm o triplo de chance de chegar aos 100

Refletindo dados gerais de velhice, as mulheres índias respondem por 69%

Paulo Saldaña, Rodrigo Burgarelli e Itaan Arruda, Especial para o Estado,

03 Dezembro 2011 | 18h14

Às margens do Rio Envira, em Feijó, no Acre, nasceu a índia Maria Lucimar Pereira Marroque Kaxinawá. A data está documentada em certidão de nascimento e RG: 3 de setembro de 1890. Sempre morou em aldeia, casou 2 vezes, gerou 12 filhos (3 ainda vivos) e tem 22 netos. Ela, que pode ser a mais velha do mundo, está entre os 227 indígenas centenários registrados pelo Censo 2010. Com total de 716 mil pessoas autodeclaradas indígenas no País, o grupo tem a maior proporção de pessoas nessa faixa etária. Dados mostram que as chances de um indígena fazer 100 anos é três vezes superior às de um branco. Refletindo dados gerais de velhice, as mulheres índias respondem por 69%.

Com 121 anos, Maria esbanja saúde: não só está lúcida, mas varre o quintal e ajuda no artesanato. Mesmo andando devagar, faz questão de ajudar no roçado de mandioca, acompanhada pelos netos. Há 12 anos, a ONG Comissão Pró-Índio elaborou a gramática da etnia huni kui (batizada pelos antropólogos de kaxinawá, após os primeiros contatos). Maria foi referência na comunidade. Ela fala português com dificuldade. “Gosta mesmo é de falar a nossa língua”, orgulha-se o neto Ninawá. “Ela é uma boa contadora de histórias. Nossas histórias, claro.” Atualmente, ela mora na aldeia Mâe Txanayá, na Terra Indígena Kaxinawá. Para encontrar essa comunidade, são aproximadamente quatro horas de estrada até Feijó. Depois, mais seis horas pelas águas do Envira.

Receita. Costumes simples, a distâncias do estresse das cidades e, principalmente, uma boa alimentação são apontados como se fosse uma receita - a se tomar nota. A índia Guarani Julia de Souza, de 102 anos, ainda mantém o costume de comer mandioca cozida com ovo de galinha, batata e peixe assado na tribo Jaguapiru, a 16 km de Dourados, Mato Grosso. Ela nasceu entre os índios do litoral paulista e já não se lembra de seu nome indígena. “O recurso natural praticamente não existe na tribo, já chega muita coisa industrializada. Mas ela ainda mantém os costumes”, diz Izaque de Souza, de 41 anos, filho de Luiza. “Tem um irmão que ajuda a cuidar dela e do meu pai, que está com 93 anos.”

Segundo o coordenador da ONG Opção Brasil, Marcos Aguiar, que trabalha com indígenas nas tribos de São Paulo, até mesmo os que vivem em cidades conservam alguns costumes. “Eles procuram manter suas tradições como todos, principalmente em relação à alimentação, de quantidade”, diz ele. “Além disso, os índios ainda têm a questão de valor aos mais velhos, de respeito aos anciãos, que são exemplos.” Entre os índios centenários, a maioria (54%) já vive em área urbanas.

Segundo especialistas, a herança genética influencia pouco na longevidade. “Temos de olhar com cautela para isso, porque muitas vezes as pessoas aumentavam a idade por questão de status”, alerta o médico Alexandre Kalache. O Censo também mostra que os pretos têm o dobro de chance de passar dos 100 anos que os brancos.  

 

 

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