Italiano abre temporada de livros sobre renúncia do papa

Escrito a toque de caixa, obra de historiador fala sobre outros papas e especula razões que motivaram Bento XVI

JOSÉ EDUARDO BARELLA, O Estado de S. Paulo

02 Março 2013 | 09h19

Os portões de Castel Gandolfo mal se fecharam, tirando de cena o agora papa emérito Bento XVI, e o mercado editorial já tem no prelo um livro que se propõe a explicar a primeira renúncia de um sumo pontífice em quase 600 anos. A Grande Renúncia - Por Que um Papa se Demite?, do italiano Roberto Rusconi (Edições Loyola, 190 páginas, lançamento previsto para o dia 8), chama a atenção pela rapidez com que foi escrito e, paradoxalmente, pelo prazo de validade - tende a saciar a curiosidade do leitor em torno desse episódio até o fim do conclave que elegerá o sucessor de Bento XVI. Depois disso, a figura do novo papa e os desafios que o aguardam devem relegá-lo ao esquecimento.

O autor, professor de história do Cristianismo na Universidade de Roma, publicou recentemente dois livros sobre os papas da Igreja, ambos inéditos no Brasil. Rusconi certamente aproveitou o material para escrever, a toque de caixa, a nova obra.

Na primeira parte, o livro reconta os casos anteriores de renúncia papal. Celestino V - o único papa legítimo a renunciar, em 1294 - ganha um capítulo à parte. Depois, o livro faz um apanhado sobre o poder papal em meio às transformações da Igreja, do cisma à criação do Estado do Vaticano.

A renúncia de Bento XVI começa a ser citada apenas na parte final, quando Rusconi enumera os casos recentes - a partir do século 19 - de "tentação de renúncia", a maioria por causa da debilidade física do pontífice da vez. Rusconi deixa claro que a possibilidade de abandonar o cargo sempre foi uma opção levada em conta - e jamais realizada.

Em alguns casos, como o de Pio IX (1846-1878), Leão XIII (1878-1903) e Paulo VI (1963-1978), pesaram a idade avançada e a doença. Em outros, a política. Eugenio Pacelli, que virou o papa Pio XII em 1939, chegou a se preparar para deixar o cargo em 1943, quando o regime fascista italiano caiu e tropas alemãs ocuparam Roma. Em meio a rumores de que Hitler planejava deportá-lo, Pio XII escreveu uma carta de renúncia e a entregou ao cardeal Domenico Tardini, secretário de Estado. "Se me raptam, levarão o cardeal Pacelli, e não o papa."

Influência. João Paulo II (1978-2005) - que em seus 27 anos de pontificado sofreu um atentado, retirou um tumor e foi diagnosticado com doença de Parkinson - consultou canonistas para avaliar o impacto de uma provável renúncia. Concluiu que tal medida só seria possível frente a uma doença incurável. É dele a famosa frase: "Na Igreja, não há lugar para um papa emérito".

Em relação a Bento XVI, o livro especula as situações que teriam levado o papa a amadurecer a ideia de renunciar. A primeira delas seria em 2009, quando foi duramente criticado por ter revertido a excomunhão de quatro bispos consagrados pelo arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre.

Rusconi também cita um livro-entrevista do biógrafo do papa, Peter Seewald, de 2010. Nele, ao ser indagado, Bento XVI diz que o papa pode renunciar quando tem "clara consciência de que não dispõe de condições físicas e mentais para exercer o cargo".

O escândalo do vazamento de documentos secretos da Santa Sé, o Vatileaks, e a deterioração de seu estado físico, já em 2012, também são citados. Desde então, Bento XVI teria se preparado para a renúncia: nomeou 22 novos cardeais em fevereiro (outros 6 em novembro), criou uma comissão de investigação para apurar o Vatileaks e elevou seu secretário particular, Georg Gänswein, ao posto de arcebispo. O autor especula que a renúncia foi decidida em 17 de dezembro, quando Bento XVI leu o relatório da comissão.

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