Gregorio Borgia/AP
Gregorio Borgia/AP

Moral, sexualidade, pedofilia e o papel da mulher desafiam Vaticano

Igreja é pressionada por temas como legalização do aborto e uso de preservativos

O Estado de S. Paulo,

13 Março 2013 | 17h10

Um dos centros do debate que surgiu entre a renúncia de Bento XVI e a escolha do novo papa era de que o novo pontífice assume uma igreja em crise, com grandes desafios e demandas modernas a serem resolvidos. Em suma, há uma expectativa de que o substituto de Joseph Ratzinger tenha de definir o que deve e o que pode ser reformado nessa instituição milenar.

Além dos desafios religiosos, como o de reafirmar o rumo teológico da Igreja e destravar nós burocráticos da Cúria Romana, o novo papa terá de lidar com a perda de fiéis pelo mundo e com temas ligados à moral, família e sexualidade.

Outra necessidade é combater de forma eficaz os casos de pedofilia e de corrupção. Tudo para manter a fé católica como uma realidade inteligível em um mundo em transformação, em que a própria transparência do Vaticano tornou-se um tema cada vez mais caro.

A Igreja é sempre cobrada por posicionamentos mais progressistas em torno da moral sexual, família ou homossexualidade. A instituição e suas lideranças são pressionadas por temas como legalização do aborto, uso de preservativos, controle de natalidade, casamento gay e adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, além do papel da mulher. O modo de vida hedonista moderno e o relativismo cultural também se impõem como desafio ao novo papa.

Aborto e homossexualidade. Bento XVI encarou com firmeza questões como o aborto e o homossexualidade. Documentos e discursos pontifícios insistiram na condenação do aborto, argumentando ser preciso defender a vida humana, da concepção até o seu fim natural, o que inclui a rejeição à eutanásia. O papa seguiu a trilha de seus predecessores Pio XII, Paulo VI e João Paulo II.

Quanto à homossexualidade, Bento XVI se opôs à união estável de pessoas do mesmo sexo, batendo na tecla de que o matrimônio, cujo primeiro objetivo é a procriação, só pode ser realizado entre um homem e uma mulher. Essa posição provocou manifestações contra as normas da Igreja, tachada de intransigente e retrógrada. Na viagem a Madri, em agosto de 2011, a polícia reprimiu um "beijaço" de gays na presença do papa.

Para teólogos como frei e professor Clodovis Boff, um papa pode reexaminar esses temas. "Mas sempre pressupondo Cristo como o ponto de onde parte o diálogo." Tratar desses temas é espinhoso, pois não se faz isso sem determinar o que não se altera na Igreja, aquilo sobre o qual não se deve transigir em matéria de fé. Segundo Clodovis, é pouco provável que o caminho para uma possível reforma seja uma doutrina sem a manutenção do papel central desempenhado por Cristo na fé e o da Igreja como o instrumento divino para a salvação.

Pedofilia. Dos desafios que Bento XVI enfrentou em seu pontificado, os casos de pedofilia no clero foram os mais dolorosos. O papa Ratzinger, que já havia encarado o problema enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, interveio pessoalmente no processo, quando as denúncias se multiplicaram nos EUA e na Irlanda e, em menor proporção, na Austrália e Alemanha.

Associações e grupos de famílias das vítimas cobraram da Igreja ação vigorosa para punir os criminosos. Acusaram a hierarquia católica de omissão, alegando que o papa - primeiro João Paulo II e depois Bento XVI - tentou proteger os padres pedófilos, transferindo-os de suas paróquias ou escondendo-os em conventos, em vez de entregá-los à Justiça civil.

As reivindicações foram além dos pedidos de indenizações milionárias, como as pagas por dioceses norte-americanas. Entre os acusados, surgiram nomes de bispos que, em décadas passadas, teriam abusado sexualmente de crianças. Em setembro de 2011, a associação americana Snap, de vítimas de padres pedófilos, apresentou queixa no Tribunal Penal Internacional contra Bento XVI e três cardeais por crimes contra a Humanidade. O Vaticano não comentou a iniciativa.

Diante das acusações, o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, defendeu o papa e os órgãos da Cúria Romana, para mostrar que não houve omissão. Seus argumentos não evitaram que Bento XVI se tornasse alvo de manifestações como as ocorridas na Espanha e na Alemanha.

Lombardi disse que Bento XVI sempre foi um "guia" contra a "cultura do silêncio" na Igreja no caso dos padres pedófilos. O porta-voz lembrou a carta do papa aos católicos irlandeses, na qual condenou o crime e se mostrou contrário "a qualquer encobrimento ou ocultamento de abusos sexuais de eclesiásticos contra menores". Bento XVI decretou "tolerância zero" no combate à pedofilia e na punição dos pedófilos.

A Congregação para a Doutrina da Fé analisou, de 2001 a 2010, cerca de 3 mil casos referentes a abusos sexuais contra menores praticados por sacerdotes e bispos nos últimos 50 anos. Nem todos os acusados poderiam ser classificados como pedófilos: 60% dos casos se trata de efebofilia (atração por adolescentes do mesmo sexo); 30% seriam de relações heterossexuais; e 10%, atos de abusos sexuais de crianças (pedofilia).

Ao defender-se, embora admitam a ocorrência do crime, autoridades da Igreja alegam que o número de sacerdotes no mundo ultrapassa 400 mil, dos quais "apenas" cerca de 1% são suspeitos de pedofilia. "Os casos são numerosos, mas é preciso admitir que o fenômeno não é tão extenso como se pretendia fazer crer", disse monsenhor Scicluna. Só 20% dos casos são objeto de processo penal ou administrativo, no âmbito das dioceses ou, raramente, em Roma. Os padres culpados são demitidos do estado clerical ou punidos com medidas administrativas e disciplinares, como a proibição de celebrar missa e de atender confissões, além da imposição de se retirar para uma vida de oração.

Dos 3 mil casos de pedofilia examinados pelo Vaticano, cerca de 80% foram registrados nos EUA. Em 2009, referiam-se a padres americanos perto de 25% dos 223 novos casos ocorridos no mundo. "Muitos países apresentam apenas um ou dois casos", disse o promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé.

Alguns dos escândalos que abalaram a gestão do último pontífice, como corrupção, sexo, pedofilia e vazamento de dados confidenciais da Cúria - o caso Vatileaks - chegaram até a adiar o início do conclave.

Isso porque Debater esses temas foi uma reivindicação feita publicamente por cardeais de diferentes nacionalidades nos dias que antecederam o conclave. Um dos objetivos desses religiosos era tomar conhecimento da investigação solicitada em 2012 por Bento XVI a três cardeais. Juan Herranz, Josef Tomko e Salvatore De Giorgi escreveram um relatório de 300 páginas sobre o escândalo Vatileaks e teriam descoberto ainda a existência de redes de tráfico de influências, chantagem e sexo na Cúria, segundo o jornal La Repubblica.

Celibato. O celibato dos padres e a admissão de mulheres ao sacerdócio, questões recorrentes nas últimas décadas, estiveram em discussão no pontificado de Bento XVI. E o novo papa assume a liderança da Igreja pressionado também por esses temas.

Numerosos teólogos e alguns bispos pregam abertamente o fim de uma lei eclesiástica que proíbe o casamento para os sacerdotes de rito latino, atrelando essa exigência à vocação para o sacerdócio. Em fevereiro de 2011, um manifesto assinado por 144 professores de Teologia da Alemanha, Áustria e Suíça incluiu o fim do celibato numa série de exigências de reformas na Igreja. O documento pede a ordenação de mulheres e a participação popular na escolha de bispos. O jornal Süddeutsche Zeitung, que divulgou o manifesto, observou que, segundo os teólogos, o número de signatários seria maior, se muitos não temessem represálias do Vaticano.

Os mais reformistas defendem permissão da atuação de mulheres, o que abriria a porta para as mais de 700 mil freiras. Bento XVI, porém, havia sido totalmente contrário à ideia. Pelo argumento, essa não seria uma questão de a Igreja querer mudar a regra, mas sim de não poder. Se Cristo não incluiu mulheres entre os apóstolos, só homens devem ser ordenados padres. Mais elástica seria a discussão sobre eventual autorização para ordenação de homens casados como solução para a falta de padres, mas o Vaticano não permitiu o debate.

Fiéis. Durante o século passado, a Igreja cresceu mais fora da Europa. Atualmente, existe 200 milhões de católicos a mais na América Latina do que no velho continente. Em 1910, o maior pais católico era a França, com 40 milhões de pessoas, seguido pela Itália com 35 milhões. O Brasil aparecia em terceiro, com 21 milhões, comparado a 16 milhões na Alemanha e 14 milhões, no México.

Em 2010, o Brasil se consolidou como o maior país católico do mundo, com 126 milhões de fiéis - ainda que o número proporcional de católicos no País tenha caído de 96% da população para 65%. A segunda posição hoje é do México, com 96 milhões, seguido pelas Filipinas e pelos Estados Unidos, cada um com 75 milhões.

Apesar de, em termos de número de fiéis, a Europa aparecer hoje como um continente marginal, o maior número de cardeais no Vaticano é da Europa, a sede da Igreja fica no continente e até a maioria dos santos é europeu. Dados do projeto Pew Fórum sobre Religião e Vida Pública revelam que, se em 1910 a Europa tinha 70% dos católicos do mundo, hoje tem apenas 23%. / ANDREI NETTO, JAMIL CHADE, JOSÉ MARIA MAYRINK, MARCELO GODOY E OCIMARA BALMANT

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