Na mente do outro

'Chimpanzés, bonobos e orangotangos também constroem teorias da mente'

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2016 | 03h00

A criança coloca a aranha de plástico no ombro da tia. A tia berra. A criança se diverte. O que aconteceu? Além de saber que a aranha é falsa, o cérebro da criança é capaz de criar uma teoria sobre o que se passa no cérebro da tia. O cérebro da criança postula que a tia não sabe que a aranha é de plástico e vai levar um susto.

Se não fosse capaz de criar uma teoria sobre o que se passa em um cérebro que não o seu, a criança não seria capaz de imaginar e executar a brincadeira. Essa capacidade, chamada teoria da mente (Theory of Mind, ToM), existe no cérebro de cada um de nós. 

A ToM nunca havia sido detectada em animais, mas isso mudou. Chimpanzés, bonobos e orangotangos também constroem teorias da mente. 

Não é fácil distinguir um comportamento aprendido da verdadeira ToM. Como demonstrar que um cachorro que traz o chinelo tem a ToM? Será que ele teoriza sobre o desejo que existe na mente do dono ou simplesmente foi condicionado para, ao ver o dono, trazer o chinelo? Parte de nosso amor pelos animais advém do fato de que imaginamos que eles, como nós, têm a ToM. O fato é que nunca foi possível demonstrar que cães têm essa capacidade.

Crianças não nascem com essa capacidade, e isso foi demonstrado em um experimento simples e elegante. Elas eram colocadas na frente de um palco. Paulo (um ator) entra em cena e esconde um brinquedo embaixo de um dos baldes que estão no palco. No azul, por exemplo. Aí entra outro ator, vestido de King Kong, e afugenta Paulo. Após a saída dele, King Kong muda o brinquedo de balde. Agora ele está debaixo do vermelho. Feito isso, ele vai embora.

Paulo volta ao palco. Neste ponto, o cientista interrompe o teatrinho e pergunta: “Em qual balde Paulo vai procurar o brinquedo?”. Crianças com menos de 4 anos respondem “no vermelho”, aquele que sabem ser o que esconde o brinquedo. Elas não conseguem imaginar o que se passa pela cabeça de Paulo. Mas crianças com mais de 4 anos respondem “no azul”. Elas conseguem criar uma teoria sobre o que se passa na mente de Paulo: “Ele deve estar pensando que, quando foi espantado pelo King Kong, deixou o brinquedo embaixo do balde azul. Como não viu a troca, imagina que o brinquedo ainda deve estar lá e é lá que ele vai procurar primeiro”.

Nessa idade, a criança já responde baseando-se no que imagina que se passa pela cabeça de Paulo, mesmo sabendo que ele está enganado. As mais jovens não conseguem imaginar isso e respondem o que se passa na sua própria cabeça. Esse resultado demonstra que crianças de mais de 4 anos já imaginam que Paulo tem uma crença errada em sua mente e vai agir de acordo com essa crença. Ou seja, já têm a ToM.

O que os cientistas fizeram agora foi repetir o experimento com chimpanzés, orangotango e bonobos. Mas havia uma dificuldade a ser superada, esses animais não falam. Como não é possível perguntar onde Paulo vai procurar o brinquedo, os cientistas desenvolveram um método não verbal, um aparelho capaz de detectar para onde o olho está direcionado.

Nesse novo experimento os cientistas observaram que a maioria desses primatas se comporta como crianças de mais de 4 anos. Foram testados 19 chimpanzés, 14 bonobos e 7 orangotangos usando um teatrinho muito semelhante. Apesar de uma parte não se concentrar na peça de teatro e não olhar para nenhum dos baldes, dos que prestaram atenção, aproximadamente 66% foram capazes de prever que Paulo, induzido por seu conhecimento errado, iria procurar primeiro no balde azul. Os outros 33% se comportaram como crianças de menos de 4 anos, prevendo com o olhar que Paulo iria para o vermelho.

A ToM é um elemento essencial para o bom convívio social e não é de se espantar que esses animais já tenham essa capacidade. Passo a passo, a ciência vem demonstrando que somos mais parecidos com os grandes macacos do que gostamos de imaginar. É o antropocentrismo levando paulada.

MAIS INFORMAÇÕES: GREAT APES ANTICIPATE THAT OTHER INDIVIDUALS WILL ACT ACCORDING TO FALSE BELIEFS. SCIENCE VOL. 354 PAG 110 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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