Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Nossa casca rachada

A seleção natural é implacável e envolve maturidade sexual e sobrevivência da espécie

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 02h00

A avalanche de casos de homens idosos e poderosos que usam o poder para intimidar e obter prazer sexual de mulheres jovens e belas trouxe à tona um segredo muito mal guardado. Mais importante: esses casos demonstram a existência de rachaduras e vazamentos na fina casca que a cultura, a moral e a religiosidade depositaram sobre nós nos últimos milênios. 

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Hoje essa casca recobre nossa natureza biológica. Por traz da casca rachada existe um mamífero altruísta e colaborativo, mas também agressivo, predador e violento, que sobreviveu durante milhões de anos, matando para comer e buscando a reprodução a qualquer custo.

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Todo animal, do sapo ao Homo sapiens, só existe porque todos os ancestrais, desde seus pais e avós até os mais remotos, sem nenhuma exceção, foram bem-sucedidos. Conseguiram reproduzir e deixaram descendentes. 

É sobre essa atividade que a seleção natural é implacável. Ela é composta por duas tarefas inter-relacionadas. A primeira é garantir a sobrevivência do indivíduo até a maturidade sexual. Isso significa obter alimento e evitar se transformar em alimento. 

A segunda é garantir a sobrevivência da espécie. Isso significa encontrar um parceiro sexual, copular e garantir a sobrevivência dos filhotes. E não se iluda: a busca desses objetivos é compartilhada entre os sexos e, se você não tiver sucesso, vai ser o último de sua linhagem.

Não sabemos como era o animal que foi recoberto por essa crescente casca de cultura e moral. Para conhecê-lo, precisaríamos voltar no tempo mais ou menos 1 milhão de anos, quando os ancestrais de nossa espécie viviam por aqui. 

Dessa época só sobraram ossos e é muito difícil inferir comportamentos éticos, sexuais e sociais com base neles. E não conhecemos os componentes dessa camada de civilidade ou como ela foi construída (foi o que Freud tentou explicar). O que sabemos é que hoje, do lado de fora da casca, é inadmissível um homem usar seu poder para extrair favores sexuais.

Sem acesso ao nosso passado, o melhor que podemos fazer é observar como se comportam as espécies mais semelhantes, no caso os grandes macacos, chimpanzés, bonobos e gorilas. Mas esses dados devem ser vistos com cautela, pois essas espécies se separaram de nossa linhagem milhões de anos atrás. De qualquer modo é interessante identificar nesses animais comportamentos que envergonhadamente observamos entre nós.

De maneira simplista, nos gorilas um único macho tem o monopólio das fêmeas. Esse monopólio depende de seu poder como indivíduo. Ele é maior, mais velho e, vejam, tem pelos brancos. 

Os outros machos podem tentar, pela força da competição, substituir o chamado macho alfa (uma nomenclatura que adotamos recentemente para homens poderosos). Já as fêmeas do bando competem por seu lugar na hierarquia e as mais poderosas têm acesso privilegiado aos bens materiais garantidos pelos machos poderosos (lembra algo?). No caso o bem mais valioso é a carne. Em raros casos, a troca de sexo por carne foi observada.

Nos chimpanzés é diferente. O bando tem muitos machos e fêmeas, e ambos os grupos se organizam de maneira hierárquica. Existem casais poderosos (geralmente mais ricos em privilégios alimentares) e casais menos poderosos.

Como esses animais não são monogâmicos, esses arranjos não só são dinâmicos, mas machos mais agressivos têm acesso a mais fêmeas.

Mas, para você não pensar que em todos os nossos parentes os machos têm o poder e as fêmeas são objetos sexuais que brigam pela atenção do macho poderoso, vale a pena conhecer os bonobos. Muito semelhantes aos chimpanzés, mas com uma organização social muito diferente. 

Entre eles reina a igualdade entre os sexos, ou muitos acham que existe uma leve dominância das fêmeas. No bando, o sexo é livre e é praticado diversas vezes por dia com diversos parceiros. Fidelidade nem imaginar. 

O prazer sexual é fundamental, o ato sexual muitas vezes é praticado com os casais de frente e as fêmeas são receptivas quase todo o ano. Elas possuem órgãos sexuais chamativos e clitóris muito desenvolvidos. O sexo é praticado para dirimir conflitos, reduzir a agressividade e aparentemente pelo simples prazer de fazer sexo. Gostou?

Apesar do comportamento dessas espécies (que também são recobertas por um tênue verniz social e moral) serem observadas de formas análogas em nossa espécie, o fato é que essas observações têm um valor limitado para conhecermos o ser vivo que está por trás desse verniz rachado que hoje domina o planeta.

Esse animal, o Homo sapiens, muitas vezes age, como dizemos de maneira pouco apropriada, como um verdadeiro animal predador.

MAIS INFORMAÇÕES: FRANS DE WAAL - OUR INNER APE: A LEADING PRIMATOLOGIST EXPLAINS WHY WE ARE WHO WE ARE. RIVERHEAD BOOS (2006)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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