Vivian Abagiu / Universidade do Texas em Austin
Vivian Abagiu / Universidade do Texas em Austin

Novo dispositivo identifica tecidos com câncer em 10 segundos

A nova tecnologia, 150 vezes mais rápida que a usada atualmente, foi desenvolvida por cientistas americanos para ajudar o cirurgião a decidir quais partes cortar e quais preservar; precisão é de 96%

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 19h18

Um grupo de cientistas americanos desenvolveu um dispositivo capaz de identificar tecidos tumorais durante uma cirurgia, com alta precisão, em apenas 10 segundos - cerca de 150 vezes mais rápido que a tecnologia atual. 

Segundo os autores do artigo que descreve o novo instrumento, ele fornece aos cirurgiões informação precisa e rápida para que eles decidam quais partes cortar ou preservar, evitando a permanência de células de câncer e, assim, reduzindo assim a chance de que a doença volte após a cirurgia.

A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade do Texas (UT), em Austin (Estados Unidos), teve seus resultados pulbicados hoje na revista científica Science Translational Medicine.

"Quando falamos com os pacientes de câncer após a cirurgia, uma das principais preocupações deles é se o cirurgião conseguiu extrair todo o tumor. Mas nossa tecnologia poderá aprimorar amplamente as chances de que os cirurgiões realmente removam até o último traço de câncer", disse a pesquisadora que liderou o estudo, Livia Schiavinato Eberlin, professora de química na UT.

Atualmente, o método para determinar os limites entre o câncer e o tecido normal durante a cirurgia, chamado de análise de secção congelada, é lento e às vezes impreciso. Leva-se 30 minutos para preparar cada amostra e interpretá-la. 

Segundo Livia, isso aumenta o risco de que o paciente tenha uma infecção, ou problemas com a anestesia. Em alguns tipos de câncer, a intepretação pode ser difícil, com resultados pouco confiáveis em até 20% dos casos.

O novo dispositivo - batizado de MasSpec Pen, uma abreviação para "caneta de espectroscopia de massas" - foi testado em tecidos extraídos de 253 pacientes de câncer. O dispositivo levou cerca de 10 segundos para fornecer um diagnóstico, que teve precisão de 96%.

A tecnologia também foi capaz de detectar o câncer em regiões nos limites entre os tecidos normais e tumorais, que apresentam composição celular mista. A equipe da UC espera começar a testar a nova tecnologia em cirurgias oncológicas reais já em 2018.

"Sempre queremos poder oferecer ao paciente uma cirurgia mais precisa, mais rápida ou mais segura. Essa nova tecnologia reúne os três ítens e nos permite ser muito mais precisos na hora de decidir que tecido remover e qual deixar intacto", disse outro dos autores do estudo, James Suliburk, da Escola de Medicina Baylor (Estados Unidos).

Embora maximizar a remoção do câncer seja essencial para aumentar a sobrevivência do paciente, remover tecido saudável demais pode ter consequências profundamente negativas para os pacientes, segundo os autores. 

As pacientes de câncer de mama, por exemplo, podem ter alto risco de efeitos colaterais dolorosos, danos nervosos e impactos estéticos. Os pacientes de câncer de tireoide podem perder a capacidade de falar e de regular os níveis de cálcio do organismo, prejudicando as funções dos músculos e nervos. 

Como funciona. Todas as células vivas - saudáveis ou com câncer - produzem pequenas moléculas conhecidas como metabólitos. Essas moléculas estão envolvidas nos princiapis processos da vida, como geraçaõ de energia, crescimento, reprodução e limpeza de toxinas. Segundo os autores do estudo, cada tipo de câncer produz um conjunto único de metabólitos, que serve como "impressão digital" do tumor.

"As células de câncer têm o metabolismo desregulado e crescem fora de controle. Como ela tem metabólitos diferentes dos que existem nas céulas normais, extraímos e analisamos essas moléculas com a MasSpec Pen para obter a 'impressão digital' daquele tecido", explica  Livia.

Com as 253 amostras de tecidos usadas no estudo - de câncer de pulmão, de mama, de tireoide e de ovário, os cientistas "treinaram" previamente software chamado "classificador estatístico", para que ele reconhecesse a "impressão digital" de cada tumor.

Durante a operação, o cirurgião coloca o MasSpec Pen em contato com o tecido. Na ponta da caneta há uma gota d'água na qual se misturam os metabólitos presentes no local. Essa água é enviada automaticamente a um espectrômetro de massas diretamente ligado à caneta. O aparelho detecta as moléculas e identifica instantaneamente se o tecido tem câncer ou não.

Segundo os autores do estudo, o manuseio da caneta é bastante prático para o cirurgião - basta segurá-la contra o tecido do órgão do paciente e usar um pedal para disparar a análise automática. O resultado vem depois de alguns segundos.

"Quando desenhamos a MasSpec Pen, garantimos que o tecido permanecesse intacto, entrando em contato apenas com a água e e ponta de plástico do dispositivo durante o procedimento. O resutlado é um dispositivo médico automatizado e biocomatível. Estamos animados para começar seu uso clínico muito em breve", disse outro dos autores da pesquisa, Jialing Zhang.

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