Novo fóssil pode ser ancestral do homem

Espécie inédita de hominídeo mistura características primitivas e 'modernas'

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo

08 Abril 2010 | 21h22

“Papai, achei um fóssil.” Foi assim que Matthew Berger, o filho de 9 anos do pesquisador Lee Berger, anunciou a descoberta do Australopithecus sediba, em 15 de agosto de 2008. Claro que ele não sabia do que se tratava. Só viu uma ponta de osso aflorando da terra e chamou o pai, que fazia escavações próximo dali. “Achei que poderia ser um osso de antílope”, relembra o professor. Mas bastou ele dar uma olhada no fóssil para perceber que era a clavícula de um hominídeo – justamente o osso sobre o qual ele havia feito sua tese de doutorado. “Peguei o bloco de pedra, virei, e do outro lado havia uma mandíbula”, conta o pesquisador. Nascia, assim, uma nova espécie de hominídeo.

Os fósseis dos dois espécimes de A. sediba foram escavados na superfície. As análises geológicas da região e dos sedimentos nos quais eles foram encontrados, porém, revela que esses dois indivíduos morreram dentro de uma caverna (veja ilustração), cujo teto foi totalmente erodido pelo tempo. O geólogo Paul Dirks, da Universidade James Cook, na Austrália, foi encarregado de reconstruir o ambiente em que morreram os hominídeos (batizados, cientificamente, como Malapa Hominid (MH) 1 e 2, em referência ao ponto em que foram descobertos, chamado Malapa).

 

A hipótese principal, descrita em um segundo artigo na revista Science, é que MH1 e MH2 morreram ao cair por um fosso que funcionava como uma “armadilha natural”, que poderia ter até 30 metros de profundidade. Fossos desse tipo são comuns até hoje na região. Os esqueletos foram encontrados muito próximos e em condições semelhantes de preservação, o que indica que eles provavelmente morreram ao mesmo tempo, ou, pelo menos, separados por um período muito curto. “Se o comportamento social deles era semelhante ao de outros primatas, é provável que faziam parte de um grupo”, avalia Berger. “É muito provável que fossem aparentados.”

 

Segundo Dirks, há evidências claras de que os ossos foram “cimentados” rapidamente em um ambiente aquático. A hipótese é que os esqueletos tenham sido arrastados por uma inundação – talvez causada por uma tempestade – para uma parte mais funda da caverna, abaixo do nível do lençol freático, onde ficaram aprisionados em um poço de lama, junto com as ossadas de vários animais da época, que também teriam morrido na caverna. A lama endureceu rapidamente e se transformou em rocha ao longo do tempo.

Os esqueletos estão em ótimo estado de conservação e parcialmente articulados, o que significa que foram fossilizados pouco tempo após a morte. Caso contrário, os tecidos moles teriam se decomposto totalmente e os ossos ficariam mais espalhados, especialmente depois de serem arrastados pela água. “Estamos falando de dias, talvez semanas, mas não mais do que isso”, afirma Dirks. “Tudo indica que esses esqueletos foram fossilizados rapidamente.”

Dois milhões de anos depois, todo o topo de caverna desapareceu, levado pela erosão, e o poço de lama em que os restos mortais de MH1 e MH2 foram soterrados apareceram como rocha na superfície, no fundo de um buraco de apenas 2 metros de profundidade. O resto está na Science.

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