O parque paulista dos dinossauros

Fósseis na região oeste, centro-oeste e norte recontam pré-história de São Paulo

José Maria Tomazela (Textos) e Felipe Alves Elias (Ilustrações), O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2017 | 03h00

SOROCABA -  Achados recentes de partes de esqueleto fossilizado revelam que, em um passado remoto, várias espécies de dinossauros habitavam o interior do Estado de São Paulo. De acordo com paleontólogos como William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília, há 70 milhões de anos, o “parque dos dinossauros” paulista cobria toda a região oeste, o centro-oeste e parte da região norte do Estado. 

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Ali viviam principalmente os titanossauros, dinossauros herbívoros de cauda e pescoço longos, que podiam chegar a 25 metros de comprimento. Nava se dedica há algumas semanas a montar um quebra-cabeças: reconstruir o osso da perna dianteira de um titanossauro fraturado em vários pedaços. 

O fóssil do dinossauro foi retirado de um barranco à margem de uma rodovia na região de Presidente Prudente. É o segundo esqueleto parcial desse mesmo animal encontrado na região. O pesquisador lamenta que uma parte maior do esqueleto não tenha ficado incólume durante as obras de construção da rodovia. “Pelo estado de conservação, esse fóssil deveria estar mais completo, mas as outras partes devem ter sido destruídas pelas máquinas.”

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O osso fossilizado que aflorou ficou encravado no barranco durante anos, exposto à erosão pela chuva e ventos, até ser encontrado. Na mesma área, foram coletados dentes de terópodes (dinossauros carnívoros) e outros dentes isolados, pertencentes a crocodilianos, além de parte de um crânio de um crocodilo da família dos peirossaurídeos, com registros fósseis anteriores nessa região. Os fósseis foram parcialmente expostos por obras de construção de um trevo rodoviário.

Achado maior

Depois de reconstituído, o osso do titanossauro será exposto no museu, ao lado da reconstituição do esqueleto do parente que o próprio Nava encontrou e resgatou, em 2009, aflorando às margens da Rodovia SP-333, a 26 quilômetros da cidade de Marília. “Aquela rodovia, aberta há décadas, teve as obras executadas ao longo de um dos planaltos de Marília. No ponto exato onde estavam os fósseis, havia uma colina e houve necessidade de aprofundar o terreno para deixar a pista mais plana. Assim, muitas camadas de arenito foram expostas e em uma delas estavam os fósseis do dinossauro. Com o tempo solapando e erodindo os arenitos, eles apareceram e eu os achei”, relata.

Os trabalhos de escavação, realizados em parceria com as universidades de Brasília, Federal do Rio de Janeiro e Federal do Rio Grande do Sul, revelaram parte de um esqueleto de um titanossauro que, em vida, teria de 13 a 15 metros de comprimento – é o mais completo esqueleto da espécie já achado no Brasil. “Achados de titanossauros pelo Brasil raramente apresentam ósseos articulados, apenas isolados, o que torna o primeiro achado muito relevante”, diz Nava.

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O pesquisador é formado em História e desde adolescente se envolveu com a paleontologia, desenvolvendo habilidade para localizar e reconhecer fósseis. Na região de Marília, ele encontrou também fósseis de uma espécie extinta de um pequeno crocodilo na época desconhecido pela comunidade científica, batizado de Mariliasuchus amarali, que ainda são estudados pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e por outras instituições. “O primeiro fóssil achado nesse local foi uma concha fossilizada de um molusco bivalve e, ao lado dela, avistei uma grande vértebra de dinossauro desprendida da rocha. Foi o que me chamou a atenção para aquele local.”

Durante o exame do barranco, Nava encontrou fragmentos de costelas, duas vértebras caudais e ossos da bacia, formando um conjunto que, depois, compôs parte da região sacral do dinossauro. “Fotografei tudo, contatei amigos, como o paleontólogo Rodrigo Santucci, da Universidade de Brasília (UnB), e entre 2011 e 2012 fizemos quatro etapas de escavações que resultaram na remoção de 50% do esqueleto desse titanossauro. Associado ao fóssil estavam também dentes de crocodilianos e dinossauros terópodes (carnívoros), o que indica que nosso dino foi devorado e seus dentes fossilizaram junto”, conta.

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Os fósseis foram encontrados em camadas de arenito do Cretáceo Superior da Formação Marília, formados entre 65 e 79 milhões de anos. Nava imagina que havia na região um rio primitivo, de tempos em tempos exposto a fases de extrema aridez. Em um desses momentos, o titanossauro ficou exposto em um banco de areia desse rio, onde os animais carniceiros se banquetearam, antes que sua carcaça fosse definitivamente coberta pelas camadas de arenito, que aprisionaram os ossos, transformando-os em fósseis.

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Titanossauro no meio da rua

Osso foi achado por acaso em Ribeirão e escavações serão retomadas em 2018; registros chamam a atenção até de especialistas de outros países

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2017 | 03h00

SOROCABA - O oeste e o centro-oeste de São Paulo são reconhecidos pela ciência como um grande “cemitério” pré-histórico, principalmente de fósseis de dinossauros como o titanossauro. “Apenas na região de Marília já pude identificar restos de mais de dez titanossauros, entre ossos quase inteiros e semiarticulados, ou fragmentados e isolados, mas que provam que esses antigos gigantes vagavam por aqui. A descoberta do úmero de titanossauro em Presidente Prudente é mais um registro importante para a paleontologia brasileira”, afirma William Nava.

A abundância de sítios paleontológicos nessa parte do interior é tanta que, em julho, um comerciante encontrou por acaso um osso de titanossauro, quando pedalava na zona rural de Monte Alto, na região de Ribeirão Preto. A paleontóloga Sandra Tavares, diretora do Museu de Paleontologia de Monte Alto, acredita que outras partes do esqueleto ainda estão no local. As escavações serão retomadas no próximo ano. Ela conta que, nessa região, já foram encontrados fósseis de tartarugas e crocodilos pré-históricos, como o Montealtosuchus arrudacamposi, assim batizado em homenagem à cidade e ao seu descobridor, o paleontólogo Arruda Campos.

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Pegadas de animais menores que viveram na “era dos dinossauros” ainda foram resgatadas em lajotas de arenito usadas para calçamento em Araraquara e cidades da região. O paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), descobriu em 2001, em uma pedreira de Araraquara, uma marca fossilizada provavelmente deixada pela urina de um dinossauro. A estrutura preservada do período jurássico, de até 140 milhões de anos, foi analisada pelo paleontólogo Paulo Roberto de Figueiredo Souto, especialista em coprólitos (fezes fossilizadas), que confirmou a identificação.

Em Araraquara, foram encontradas também pegadas de um ornitópodo, um dinossauro com até 5 metros de comprimento por 3 metros de altura. Já a Ufscar guarda em São Carlos uma coleção com quase mil peças de pegadas fósseis desses animais ancestrais.

O paleontólogo Felipe Alves Elias ainda lembra dois outros casos: do Antarctosaurus brasiliensis foram encontrados parte do fêmur, úmero e fragmento de uma vértebra dorsal, em São José do Rio Preto. E o achado é anterior a 1971, quando o dino foi descrito; já uma vértebra caudal do terópode Megaraptor foi achada em Ibirá em 2012.

Histórico

O paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e blogueiro do Estado considera tarefa difícil ter uma lista fechada de dinossauros “paulistas”, pois esses animais pré-históricos circulavam pelo continente. Fósseis de alguns dinos, como o Baurutitan britoi e o Uberabatitan ribeiroi, por exemplo, foram encontrados em Minas, mas com certeza eles passeavam por São Paulo. Entre os dinos que tiveram fósseis ou pegadas encontrados em território paulista, ele acrescenta o Abelisaurus, um carnívoro e bípede do período Cretáceo.

Anelli é também biólogo, mas sua principal área de atuação é a divulgação científica da pré-história brasileira. Em seu livro mais conhecido, Dinos do Brasil, ele apresenta com fotos, ilustrações e ficha técnica, 23 dinossauros que viveram por estas terras em um passado remoto. Anelli escreveu também Dinossauros e Outros Monstros - Uma Viagem à Pré-História do Brasil.

O paleontólogo Rodrigo Santucci incluiu outros dois nomes na lista de dinossauros que habitaram o interior paulista. O Gondwanatitan faustoi, um herbívoro da família dos titanossauros, que media 8 metros de comprimento por 2 metros de altura e seus fósseis foram achados por um agricultor, em 1983, na cidade de Álvares Machado, vizinha de Presidente Prudente. O Aeolosaurus maximus teve os fósseis encontrados em 1998, próximo de Monte Alto, mas só foi identificado em 2011. Foram encontrados vértebras, costelas e fêmur. O nome se deve ao fato de o espécime brasileiro ser maior que os Aeolosaurus encontrados na Argentina.

Também viveu em território paulista o Adamantisaurus mezzalirai, cujo fóssil foi encontrado durante a construção de uma estrada de ferro, perto de Adamantina. Os ossos resgatados pelo paleontólogo Sérgio Mezzalira ficaram guardados no Museu Valdemar Lefevre (Mugeo), no Parque Água Branca, em São Paulo, até serem descritos, em 2006, por Santucci e pelo paleontólogo Reinaldo Bertini. O dino, um titanossauro de 12 metros de comprimento por 4 de altura, recebeu o nome em homenagem ao local em que foi achado e ao autor do resgate.

Internacional

Recentemente, o Museu de Paleontologia de Marília recebeu dois pesquisadores do Museu de História Natural de Los Angeles (EUA) e um paleontólogo argentino, que trabalha na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De acordo com Nava, eles vieram a Marília realizar trabalhos de preparação de fósseis de aves primitivas. Diferentemente dos répteis voadores da época, essas aves, aparentemente, tinham penas. “Os pesquisadores americanos já adiantaram que esse material é fantástico e raro no continente americano.”

Ele tem certeza de que há muito mais a ser descoberto. “Com certeza há esqueletos de dinossauros fossilizados e enterrados sob as pastagens, as lavouras e nos pomares.”

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