Gabriela Biló
Gabriela Biló

Paciente com esquizofrenia sofreu para identificar a doença

O engenheiro José Orsi teve a 1ª crise em 1994, mas só a partir de 2001 passou a fazer os tratamentos adequados

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2017 | 03h00

Engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), José Alberto Orsi começou a enfrentar os primeiros sintomas de depressão crônica em setembro de 1994, aos 26 anos de idade. Ele ainda não sabia, mas aquele era o início de uma longa história de sofrimento com as crises psicóticas causadas pela esquizofrenia.

"O primeiro surto de esquizofrenia é muito difícil de ser caracterizado. Mesmo tendo antecedentes na família, o diagnóstico ainda não era possível. Cheguei a ter atendimento psiquiátrico, mas aquela primeira crise, de fato , foi mais de depressão que esquizofrenia", disse Orsi ao Estado.

A família sempre teve preocupação com sua saúde mental. O pai havia sido diagnosticado com esquizofrenia em uma época de medicação rudimentar e de tratamentos com choques elétricos. No entanto, nem todos os cuidados da mãe - Orsi fazia psicoterapia desde os 13 anos - o livraram dos problemas mentais.

"Eu era tímido e retraído, mas tinha uma vida social normal. O psiquiatra tranquilizou minha mãe, dizendo que não havia nenhum problema mais grave. Mas quando eu melhorava da depressão, parava a psicoterapia e os sintomas voltavam", contou.

Antes de seus problemas começarem, Orsi era engenheiro fiscal de obras em um grande empreendimento em São Paulo, mas foi transferido a contragosto para a atuar na ampliação de um shopping center em Santo André, na Região Metropolitana da capital.

"Meu desejo era trabalhar com urbanismo, em uma grande empresa pública. Essa frustração ficou latente e, em 1994, percebi que aquele emprego supostamente provisório seria de fato o emprego da minha vida. Quando tive os sintomas de depressão, atribuí isso à frustração e não à doença", disse Orsi.

Apesar do diagnóstico de depressão, o psiquiatra alertou que Orsi precisaria tomar uma medicação pelo resto da vida. “Provavelmente na época ele já suspeitava de esquizofrenia, mas não me revelou.”

Viagens e crises

As crises depressivas duraram até maio de 1995, quando os sintomas arrefeceram, mesmo com a suspensão da medicação, e Orsi decidiu se licenciar do trabalho e ir para o Mississipi, nos Estados Unidos, para aprimorar seu inglês.

A mudança de ares parecia ter sido salutar. O engenheiro não tinha mais nenhum resquício de depressão, começou a fazer um MBA e, entre 1995 e 1998, estudou e viajou muito em território americano e Europeu. Passou três anos sem medicação e sem sintomas. "Fiquei cada vez mais convencido de que a depressão realmente era produto da frustração profissional.”

Em maio de 1998, a aparente estabilidade desmoronou de uma só vez. Na reta final de seu MBA, submetido ao estresse e depois de ter problemas com uma professora, Orsi teve sua segunda crise. Mas dessa vez tratava-se mesmo de um surto esquizofrênico, com alucinações.

“Comecei a perceber uma série de ‘fenômenos’ que eu julgava serem de natureza esotérica e sobrenatural. Comecei a sentir que recebia mensagens telepáticas da televisão e da internet. Achava que meu telefone estava grampeado e que podiam ler minha mente. Eu decifrava importantes códigos secretos e universais de jornais e revistas. A CIA estava por trás da articulação dessa trama”, contou.

As atitudes bizarras começaram a chamar a atenção da vizinhança. Um dia, convencido de que era o escolhido para repovoar a Terra e ser o Messias, Orsi  acreditou que era chegada a hora da revelação. Despiu-se e mergulhou na piscina de seu condomínio. Foi retirado por um policial e levado algemado até uma ambulância. Ele fantasiava que tudo era uma pegadinha da CNN, emissora da qual seria herdeiro.

“Fui internado em uma clínica no Mississipi e, duas semanas depois, minha irmã, que morava em Miami, me levou para a Flórida. Ali um médico finalmente fez o primeiro diagnóstico de esquizofrenia. Comecei o uso do antipsicótico que tomo até hoje. Ele me disse que teria que tomar o medicamento para sempre. Aquilo foi devastador para mim”, disse o engenheiro.

Idas e vindas

Arrasado pelo o diagnóstico, Orsi voltou ao Brasil para se tratar. O psiquiatra que o havia atendido em 1995 não concordou  com o diagnóstico de esquizofrenia feito pelo médico americano e, no fim de 1998, suspendeu o antipsicótico e receitou apenas lítio para as alterações do humor.

Em janeiro de 1999, em melhores condições, Orsi voltou ao Mississipi para terminar seu curso. Ele deixou de tomar o lítio por conta própria e concluiu seu MBA. Após realizar alguns trabalhos na própria universidade, para se manter, conseguiu um emprego na Microsoft, em setembro, do outro lado do país, em Redmond, estado de Washington. Dois meses depois, teve seu terceiro surto.

“Resolvi voltar para Miami de carro. Quando cruzava o estado de Montana, tive um surto mais forte e fui recolhido pela polícia local. Novamente, fiquei internado por duas semanas até que minha irmã me levou mais uma vez para Miami. Vi que não tinha condições de me radicar nos Estados Unidos, como queria. Voltei ao Brasil em janeiro de 2000, triste e insatisfeito”, afirmou.

Em São Paulo, a crise continuou e Orsi foi internado na Santa Casa. Houve troca de prontuários entre os médicos dos Estados Unidos e do Brasil e ele acabou diagnosticado como bipolar e ficou uma ano tomando apenas antidepressivos.

“Em maio de 2001, tive meu quarto surto. Finalmente comecei a tomar de forma contínua a medicação básica que havia tomado após o primeiro diagnóstico de esquizofrenia nos Estados Unidos - e que tomo até hoje”, contou Orsi.

Mudanças

 O engenheiro afirma que um dos fatores que agravaram os problemas foi tratar-se com vários psiquiatras. “Havia troca de prontuários, mas eles pegavam fases diferentes dos surtos.  Agora já tenho um diagnóstico bem consolidado. A grande dificuldade é o diagnóstico inicial e a aceitação do paciente e da família. Fui medicado por todo o período de 1994 a 2000, mas negava a doença”, comentou.

Além do antipsicótico, Orsi toma hoje um estabilizador do humor e outros fármacos clínicos para controlar efeitos colaterais da medicação, como aumento do peso e da pressão sanguínea. Desde 2001, ele faz consultas semestrais com o clínico geral e visita o psiquiatra a cada dois meses. “Estou estável, não tive mais surtos desde então.”

Em 2003, por meio de uma palestra na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, Orsi conheceu a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre).

“Passei a frequentar as reuniões do grupo de Estratégia, Comunicação e Informação da instituição. Conheci novas pessoas e portadores da doença. Minha visão e perspectiva de mundo mudaram bastante. Comecei a trabalhar na ONG.”

Em 2007, Orsi se tornou diretor adjunto da Abre e, em 2017, passou a ser o tesoureiro da instituição.

“As perspectivas são muito boas, pois a ONG tem um ótimo potencial de crescimento e me dá muito apoio. Temos uma parceria com a Unifesp e estamos caminhando para seguir os passos de um modelo anglo-australiano de instituição, que oferece uma retaguarda de oficinas e oportunidades de superação e engajamento social e profissional para pessoas que têm esquizofrenia e transtornos mentais de modo geral”.

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