Papa pede união na Alemanha, mas deixa povo frustrado

O papa Bento 16 fez um apelo por unidade neste domingo para os católicos de seus país-natal, a Alemanha, que estão deixando a Igreja Católica em número recorde, mas muitos dos que foram ouvi-lo disseram ter ficado decepcionados com a sua mensagem conservadora.

PHILI, REUTERS

25 Setembro 2011 | 10h59

Durante seu principal discurso em uma viagem de quatro dias, em uma missa para dezenas de milhares de pessoas em um pequeno aeroporto perto da cidade de Freiburg, no sudoeste alemão, o papa pediu que os católicos se unissem em apoio à sua própria liderança.

"A Igreja na Alemanha vai continuar sendo uma benção para todo o mundo católico se ela permanecer fielmente unida com o sucessor de São Pedro," afirmou, referindo-se a si próprio.

Sua terceira viagem como papa a seu país-natal foi também a mais difícil. Ele encontrou protestos sobre os escândalos de abuso sexual por padres e pressão por parte de uma ala liberal cada vez mais assertiva da Igreja, que pede reformas e vê o conservadorismo como antiquado.

Bento 16 fechou as portas para o casamento gay, o casamento do clero ou à presença de mulheres padres, além de ter indicado que não vai amenizar restrições aos católicos divorciados e que se casaram novamente fora da igreja.

De Berlim a Erfurt e Freiburg, ele espalhou sua visão de que a Igreja não pode mudar meramente para se adequar aos caprichos dos tempos. Mas pesquisas dizem que os alemães católicos discordam. Cerca de 181 mil deixaram a Igreja neste ano, um recorde. Pela primeira vez, esse número superou os que chegaram à Igreja e os que deixaram as igrejas protestantes.

Muitos dos 100 mil fiéis que foram ao aeroporto em Freiburg disseram estar frustrados pela negativa em mudança por parte do papa. "Eu esperava que ele poderia levar as pessoas à Igreja, especialmente os jovens", afirmou Martine Kircher, 50, que levou seus quatro filhos para ver o papa. "Mas ele não mostrou sinais de renovação. Em vez disso, parece estar remando de volta aos antigos valores."

Mesmo em uma sociedade cada vez mais secularizada, as igrejas católica e protestante são grandes instituições na Alemanha.

Cerca de um terço da população é católica, outro terço é protestante e o restante é composto por pessoas sem religião ou de grupos como muçulmanos e judeus. Membros precisam pagar uma taxa à igreja, que ajuda a financiar programas sociais, educacionais e de saúde.

Holder Gasch, 37, um dos fiéis que foram à missa neste domingo, disse à Reuters: "A Igreja precisa ser mais progressista em sua atitude em relação ao homossexualismo e às mulheres."

Vários líderes católicos e até alguns bispos exortaram o papa nas últimas semanas a permitir algumas reformas, um pedido aparentemente rejeitado pelo pontífice no sábado, quando ele disse que, sem uma fé renovada, "todas as reformas estruturais continuarão ineficazes."

O assunto do abuso sexual de crianças por parte de padres está sendo muito comentado durante a viagem. No início da visita, ele disse que a Igreja era feita de "peixes bons e peixes maus" e exortou os Católicos a não deixarem a fé devido aos escândalos.

A Igreja na Alemanha recebeu quase 700 pedidos de indenização por vítimas de abuso sexual e psíquico. A associação de vítimas calcula que mais de 2.000 pessoas podem ter sofrido nas mãos de padres católicos nas últimas décadas.

Bento 16 realizou uma visita surpresa a vítimas de abuso em Erfurt, na sexta-feira.

(Reportagem de Philip Pullella e Tom Heneghan)

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