Papéis encontrados com mordomo de Bento XVI deveriam ter sido destruídos

Paolo Gabriele afirmou que permaneceu detido em uma cela que não cumpria os requisitos mínimos e sofreu maus-tratos

Efe,

03 Outubro 2012 | 11h21

Mais de mil documentos importantes, muitos deles originais com a assinatura do papa, além de cartas pessoais de Bento XVI que deveriam ter sido destruídas, foram encontrados na casa de seu ex-mordomo, confirmaram nesta quarta-feira, 3, quatro agentes da força policial do Vaticano.

Esses documentos foram descobertos entre "centenas de milhares" achados no domicílio de Paolo Gabriele, de 46 anos, no Vaticano, segundo informaram os agentes, que testemunharam na terceira audiência do julgamento contra o mordomo.

A audiência foi acompanhada por Gabriele, que parecia impassível e apenas em alguns momentos deixou escapar um pequeno sorriso, principalmente quando os agentes relataram a batida em sua casa, no último dia 23 de maio.

Os agentes que testemunharam foram Luca Cintia, Stefano De Santis, Silvano Carlo e Luca Bassetti, que confirmaram que os documentos estavam escondidos entre os "centenas de milhares" que guardava e que muitos desses textos aparecem no livro "Sua Santità", de Guanluigi Nuzzi, que revela supostas intrigas e escândalos no Vaticano.

De Santis assegurou que a batida - que durou cerca de oito horas - aconteceu na presença de Gabriele, sua esposa, filhos e seu advogado Carlo Fusco. Os agentes pediram que tirassem as crianças da casa, para evitar qualquer mal-estar, mas Gabriele preferiu que permanecessem.

Segundo o depoimento dos agentes, as centenas de milhares de documentos ocupavam 82 caixas que foram levadas às dependências do Corpo da Gendarmaria do Estado da Cidade do Vaticano, distante poucos metros da casa de Gabriele.

Os documentos importantes, muitos deles fotocopiados, se referiam à vida, à família e a outros dados que correspondem à privacidade do papa, por isso alguns deles continham a ordem para que fossem destruídos.

Outros se referiam a cartas enviadas ao papa por cardeais, clérigos ou pessoas que lhe pediam conselhos, outras de respostas do pontífice, assim como documentos enviados ou recebidos das Nunciaturas (embaixadas do Vaticano).

Além disso, encontraram na casa de Gabriele documentos sobre o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi e o assassinado banqueiro Roberto Calvi, além de textos sobre ioga, cristianismo, maçonaria e esoterismo.

Documentos sobre como realizar vídeos através dos computadores, como usar um telefone celular sem deixar rastros e vários materiais para armazenar dados eletrônicos também foram encontrados.

De Santis detalhou que os agentes não buscavam "nem armas nem drogas", apenas documentos e que muitos deles estavam codificados.

Além disso, confirmaram ter visto o cheque no valor de 100 mil euros doado a Bento XVI pela Universidad Católica de Múrcia (Espanha) e a semente, supostamente de ouro, dada ao papa em uma viagem, os quais, segundo disse ontem Gabriele durante seu interrogatório, desconhece como chegaram a seu domicílio.

Já Luca Cintia, vice-comissário da Gendarmaria, confirmou que ele foi o responsável pela detenção e custódia de Gabriele e que o ex-mordomo "sempre foi tratado da melhor maneira possível".

Ontem, após ser interrogado por sua advogada, Cristiana Arru, Gabriele afirmou que permaneceu detido em uma cela que não cumpria os requisitos mínimos, até o ponto de não poder esticar os braços.

Também declarou que sofreu pressões psicológicas, já que - segundo o próprio - durante a primeira noite lhe impediram de usar o travesseiro e que durante 20 dias a luz permaneceu acesa 24 horas por dia.

Gabriele, de 46 anos, está sendo acusado de roubo com agravantes de documentos reservados do pontífice, delito pelo qual pode ser condenado a até quatro anos de prisão.

A audiência de hoje começou às 9h13 locais (4h13 de Brasília) na sede do Tribunal de Justiça do Vaticano e durou uma hora e meia. A próxima acontecerá no sábado, dia no qual deve concluir o julgamento e ser ditada a sentença.

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