Peixe usa eletricidade para ‘sequestrar’ presa

Peixe usa eletricidade para ‘sequestrar’ presa

Com experimentos, pesquisador revelou que as descargas do poraquê afetam os neurônios que controlam músculos dos animais

Fábio de Castro, O Estado de S> Paulo

05 Dezembro 2014 | 03h00

Típico da Bacia do Rio Amazonas, o poraquê (Electrophorus electricus) usa descargas de alta voltagem para controlar remotamente os músculos de suas presas, de acordo com novo estudo, publicado na edição desta quinta-feira, 4,  da revista Science

O poraquê, também conhecido como peixe-elétrico, produz descargas de até 600 volts, suficientes para matar um cavalo adulto. Até agora, no entanto, a ciência ignorava como funciona de fato o sistema elétrico do animal. Com uma série de experimentos, um pesquisador acaba de revelar que as descargas elétricas do poraquê afetam os neurônios motores que controlam os músculos de suas presas, “sequestrando” assim os circuitos neurais que eles usam para se mover.

De acordo com o autor, Kenneth Catania, da Universidade Vanderbilt (Estados Unidos), o poraquê produz diferentes tipos de descargas elétricas. Algumas delas, de baixa voltagem, funcionam como sensores do ambiente para auxiliar na navegação, já que o peixe-elétrico enxerga mal. Mas as descargas de alta voltagem servem tanto para localizar a presa, quanto para incapacitar sua fuga. Segundo Catania, o recurso utilizado pelo poraquê funciona de forma semelhante a um “teaser” - arma não letal que usa descargas de alta tensão para imobilização. “É incrível a semelhança entre a descarga elétrica do peixe-elétrico e um teaser. A diferença é que o teaser emite 19 pulsos de alta voltagem por segundo, enquanto o peixe-elétrico produz 400”, disse Catania.

Para os experimentos, o cientista colocou diversos poraquês em um grande aquário equipado com um sistema capaz de detectar os sinais elétricos dos animais. Segundo ele, os movimentos do poraquê são incrivelmente rápidos: eles podem engolir um peixe em um décimo de segundo. O cientista então montou um sistema de vídeo especial que capta milhares de quadros por segundo, para estudar os movimentos dos animais em câmara lenta.

Além das descargas de baixa voltagem usadas para perceber o entorno, os animais produziam curtas sequências de dois ou três pulsos de alta voltagem, que duram poucos milissegundos. O cientista verificou que esses pulsos eram usados na caçada: ao passar perto de um peixe oculto, os pulsos fazem a presa ter uma convulsão que denuncia sua posição - já que o poraquê é eficaz na detecção de movimentos. Nesse momento, o poraquê lança uma descarga de alta voltagem, com duração de 10 a 15 milissegundos, que paralisa completamente a presa por três ou quatro milissegundos - o suficiente para ser abocanhada pelo rápido caçador elétrico.

Segundo Catania, os pulsos duplos ou triplos correspondem ao sinal enviado pelos neurônios motores do peixe aos seus músculos para contraí-los. “Normalmente, nenhum animal consegue contrair todos os músculos do seu corpo ao mesmo tempo. Mas é exatamente o que o peixe-elétrico causa com esse sinal. Ele usa seu sistema elétrico para controlar o corpo da presa”, declarou Catânia.

RAIO X

Nome científico: Electrophorus electricus

Nome popular: poraquê, peixe-elétrico, enguia elétrica

Hábitat: rios e lagos com fundo lodoso e águas calmas

Distribuição: norte da América do Sul, especialmente na Bacia do Rio Amazonas

Tamanho: pode chegar a 3 metros

Dieta: os juvenis comem invertebrados, enquanto os adultos se alimentam de peixes e pequenos mamíferos

Descarga elétrica: 600 volts, capaz de matar até um cavalo adulto

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Poraquê revista Science

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