Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Perto do Nobel

Anúncio do prêmio trouxe uma lembrança divertida sobre Richard Henderson

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

Richard Henderson, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Química, trabalha no laboratório onde fiz meu pós-doutoramento, o Laboratory of Molecular Biology (LMB), em Cambridge, Inglaterra. Me lembro dele, porém, por mais que dê trato à bola, não recordo de termos trocamos uma palavra sequer. Pena. Mas o anúncio do prêmio trouxe uma lembrança divertida.

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Durante a segunda metade do século passado, o LMB foi a Meca da Biologia Molecular. Criado após a Segunda Guerra, em três salas do Cavendish Laboratory, mudou em 1962 para um pequeno prédio de cinco andares na periferia de Cambridge. Foi nesse prédio que passei anos deliciosos. 

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Éramos aproximadamente 60 pós-doutores e 30 cientistas seniores, um grupo menor que o de muitos departamentos da Universidade de São Paulo (USP). A diferença é que os 30 seniores já tinham dividido seis prêmios Nobel. Mais dois foram recebidos enquanto eu estava lá, e desde então o total chegou a 16. Outros 12 foram recebidos por projetos iniciados lá por pós-doutores.

É possível argumentar que a Biologia Molecular foi criada no LMB. Frederick Sanger sequenciou a primeira proteína e ganhou o Nobel de Química em 1958. John Kendrew e Max Perutz determinaram a estrutura tridimensional das proteínas e por isso receberam o Nobel em 1962. James Watson e Francis Crick elucidaram a estrutura do DNA e levaram o prêmio de Medicina em 1962 (quatro prêmios para o LMB no mesmo ano). Em 1980, Sanger ganhou seu segundo Nobel por descobrir como sequenciar o DNA. Sydney Brenner iria ganhar mais tarde pela descoberta do RNA. Aron Klug havia recebido o seu por determinar a estrutura dos vírus. 

Trabalhar lá era o sonho de todo pós-doutor interessado em Biologia Molecular. Dividíamos a mesma infraestrutura física e nos encontrávamos no restaurante do quinto andar: às 9h30 para um café, almoço às 12 horas, e chá às 17 horas. Todos sentados em longas mesas. A tradição do laboratório é que só problemas centrais merecem atenção, independentemente de sua dificuldade. Se levar décadas para resolver, paciência. Richard Henderson decidiu resolver a estrutura de proteínas de membrana na década de 1970, parecia impossível. Em 1990, descobriu como resolver o problema, muitas estruturas foram resolvidas, e o Nobel veio agora. Hoje seu grupo é de quatro pessoas, ele e três pós-doutores. Grupos pequenos, alta densidade intelectual, problemas difíceis. Foco total. Modelo concebido por Perutz, que sobrevive desde 1947.

Quando fui contratado em 1984, me pediram que chegasse em setembro a tempo de assistir o seminário anual do laboratório. Cheguei dois dias antes. Só conhecia as pessoas pelo nome, impossível ligar os nomes às faces, web sites não existiam. Durante meu doutoramento nos EUA havia sequenciado DNA usando a técnica de Sanger e produzido anticorpos monoclonais usando a técnica descoberta por Cesar Milstein, ambos do LMB, mas quem seriam eles?

No seminário, meu estado de espírito era semelhante ao de uma fã de primeira fila em um show do Justin Bieber. Sentei babando ao lado do único conhecido, um americano. No meio de uma conferencia, entra um senhor na sala, interrompe, e diz rapidamente algo que não compreendo. Viro para meu amigo para perguntar. Todos batem palma, ele faz sinal para eu ficar quieto. Obedeço. As palmas terminam e o seminário continua. Com a mão em concha, pergunto o que houve. Ele diz sussurrando: “Cesar Milstein ganhou o prêmio Nobel”. Eu: “Onde ele esta?”. Meu amigo apontou para um senhor magrinho sentado exatamente na minha frente. Foi o mais perto que cheguei da concessão de um prêmio Nobel.

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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