REUTERS/Mike Blake
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Pesquisa questiona relação entre cão e homem: melhor amigo ou parasita?

Estudo da Universidade de Oxford avalia se os cachorros têm sentimentos como amor e lealdade ou se seu comportamento é apenas uma questão de instintos que evoluíram, já que ser dependente é mais fácil do que correr atrás de um alce

James Gorman, New York Times

04 Fevereiro 2016 | 10h51

OXFORD - Antes de os humanos ordenharem vacas, pastorearem cabras ou criarem porcos, antes de inventarem a agricultura ou a escrita, antes de terem casas permanentes e, muito certamente, antes de terem gatos, eles tinham cães. Ou os cães os tinham, dependendo de como se vê o arranjo humano-canino. Porém, os cientistas ainda debatem exatamente quando e onde o velho vínculo se formou. E um grande novo estudo em andamento na Universidade de Oxford, com colaboradores do mundo inteiro, pode em breve fornecer respostas.

Os cientistas têm de criar um cenário amplo da origem dos cães. Para começar, os pesquisadores concordam que eles evoluíram dos lobos antigos. Cientistas antes pensavam que um visionário caçador-coletor tivesse apanhado um filhote de lobo de sua toca um dia e começado a criar lobos cada vez mais mansos, dando os primeiros passos na longa estrada até as guias e coleiras antipulgas. Essa história foi bem simplificada, é claro, mas a essência da ideia é que as pessoas criavam lobos para se tornarem cães da mesma forma que agora criam cães para ser pequeninos ou grandes, ou para cuidar do rebanho.

A opinião científica predominante hoje, no entanto, é que essa história da origem não resiste à investigação. Lobos são difíceis de amansar, até mesmo filhotes, e muitos pesquisadores acham mais plausível que os cães, na verdade, se inventaram.

Imagine que alguns lobos de antigamente fossem um pouquinho menos tímidos ao redor dos caçadores nômades e vasculhassem regularmente suas matanças e campos, gradualmente evoluindo até se tornarem mais mansos, produzindo muitos filhotes por causa da alimentação relativamente fácil. Em algum momento, eles se tornaram os pedintes que abanam o rabo agora celebrados como o melhor amigo do homem.

Pesquisadores questionam se os cães têm sentimentos como amor e lealdade, ou se seus comportamentos são apenas uma questão de instintos que evoluíram porque ser um dependente é um jeito mais fácil de sobreviver do que correr atrás de um alce. Raymond Coppinger, professor emérito de Biologia da Faculdade Hampshire, Estados Unidos, observou em seu livro de 2001, Dogs (Cães), que "melhor amigo" não é uma "definição ecológica". E ele sugeriu que "o cão doméstico pode ter se transformado em um parasita".

Pesquisadores também assinalam que dos estimados um bilhão de cães do mundo, somente um quarto deles é de animais de estimação. A grande maioria dos cachorros corre livre em vilarejos, vasculhando comida em lixões, obtendo esmolas ocasionais e causando dezenas de milhares de mortes humanas todos os anos por causa da raiva. Às vezes, são amistosos, mas não realmente amigos.

Diferenças. Os cães modernos são diferentes dos lobos modernos de muitas formas. Eles comem confortavelmente na presença de pessoas, enquanto os lobos não. Os crânios são maiores e os focinhos, mais curtos. Eles não vivem em estruturas de alcateia quando estão por conta própria, e cientistas zombam de abordagens de treinamento canino que exigem dos humanos uma atitude de líder da matilha.

Os lobos formam casais por longo tempo e os pais ajudam com os filhotes, enquanto os cães são completamente promíscuos e os machos não dão atenção à sua prole. Mesmo assim, cães e lobos cruzam facilmente entre si e alguns cientistas não estão convencidos de que os dois sejam espécies diferentes, ceticismo que reflete debates maiores na ciência sobre como definir uma espécie, e o quanto a categoria é um fato da natureza em oposição a uma linha arbitrária traçada pelos humanos.

Se as divisões atuais entre espécies são difíceis de distinguir, o passado jaz em trevas profundas. Em geral, os cientistas concordam que existem bons indícios de que os cães foram domesticados perto de 15 mil anos atrás. Ao redor de 14 mil anos atrás, as pessoas enterravam esses animais, às vezes ao lado dos humanos. Contudo, biólogos argumentam, baseados em evidências de DNA e no formato de crânios antigos, que a domesticação do cão ocorreu muito antes de 30 mil anos atrás.

Quanto ao local onde o processo ocorreu, pesquisadores que estudam DNA de cães e lobos - a maioria moderna, mas alguns de fontes antigas - têm afirmado nos últimos anos que os cães se originaram na Ásia Oriental, Mongólia, Sibéria, Europa e África.

Genética canina. Um motivo para as teorias conflitantes, segundo Greger Larson, biólogo do departamento de Arqueologia da Universidade de Oxford, é que a genética canina é uma bagunça. Durante entrevista em seu escritório em novembro, ele observou que a maioria das raças caninas foi inventada no século XIX durante um período de obsessão pelos cães que ele chamou de "o gigantesco turbilhão do louco frenesi vitoriano de criação de cães na Europa".

Esse turbilhão, bem como o cruzamento aleatório dos cães entre si, e o intercruzamento com lobos em diferentes momentos dos últimos 15 mil anos, criaram um "sopão" da genética canina, sendo muito difícil identificar os ingredientes, disse Larson.

Ele está convencido que, para encontrar a receita, é necessário criar um grande banco de dados de DNA antigo, para acrescentar à sopa da genética dos cães modernos. E com um colega, Keith Dobney, da Universidade de Aberdeen, na Escócia, convenceu os bambambãs entre os pesquisadores do tema a participar de um projeto amplo, contando com uma verba de US$ 2,5 milhões do Conselho de Pesquisa Ambiental, na Inglaterra, e do Conselho de Pesquisa Europeu, para analisar ossos antigos e seu DNA.

Robert Wayne, biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, campus de Los Angeles, que estuda a origem dos cães e integra o projeto, disse que "dificilmente existe alguma pessoa trabalhando no campo de genética canina que não faça parte do projeto". Isso é uma espécie de triunfo, tendo em vista as muitas teorias concorrentes nesta área. "Quase todo grupo tem uma hipótese diferente da origem."

Contudo, Larson os convenceu com a noção simples de que quanto mais dados tiverem, mais cooperativa é a iniciativa e melhores serão as respostas.

Ao redor do mundo. Cientistas em museus e universidades que participam do projeto estão abrindo suas coleções. Para coletar os dados, Larson e sua equipe em Oxford viajaram o mundo, coletando amostras minúsculas de ossos e medições de dentes, mandíbulas e, ocasionalmente, crânios quase completos de cães antigos e recentes, lobos e canídeos que poderiam entrar em qualquer uma das categorias. Segundo Larson, a fase de coleta está quase pronta. Ele espera terminar com o DNA de quase 1,5 mil amostras, além de fotografias e medições detalhadas de milhares de espécimes.

Estudos científicos começarão a ser publicados neste ano a partir do trabalho de Oxford e, também, de outras instituições, resultado do trabalho de muitos colaboradores.

Larson aposta que o projeto será capaz de determinar se o processo de domesticação ocorreu perto de 15 mil ou de 30 mil anos atrás, e em que região aconteceu. Não se trata exatamente da data, localização por GPS e nome do antigo caçador que alguns amantes dos cães podem esperar.

Todavia, seria uma grande conquista no mundo da ciência canina, um marco na análise de DNA antigo para mostrar a evolução, migrações e descendentes, do mesmo jeito que os estudos do DNA de hominídeos antigos demonstraram como os humanos antigos povoaram o globo e acasalaram com neandertais.

E por que se preocupar com a domesticação dos cães, além do interesse obsessivo que tantas pessoas têm pelos seus bichos de estimação? O surgimento dos cães pode ter sido um divisor de águas. "Talvez a domesticação canina tenha, em algum nível, dado início à mudança na forma pela qual os humanos estão envolvidos, reagem e interagem com seu ambiente. Não creio que isso seja excêntrico", disse Larson.

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