RODRIGO BURGARELLI/ESTADÃO
RODRIGO BURGARELLI/ESTADÃO

Pesquisa revela população humana com tolerância ao arsênico

Habitantes de San Antonio de los Cobres, Argentina, desenvolveram ao longo de milhares de anos adaptação de resistência ao veneno

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

05 Março 2015 | 03h00

No alto dos Andes da Argentina, um grupo de cientistas identificou, pela primeira vez na história, uma população humana adaptada para tolerar o arsênico, um elemento químico considerado tóxico, por ser um semimetal pesado. Os habitantes de San Antonio de los Cobres, no noroeste argentino, desenvolveram uma capacidade de genética de tolerar a substância venenosa.

Ao longo de milhares de anos, em algumas regiões da Cordilheira dos Andes, populações humanas ficaram expostas a altos níveis de arsênico - um fenômeno natural que ocorre quando o arsênico acumulado no leito rochoso de vulcões é lançado nas águas subterrâneas. 

Estima-se que a população indígena do noroeste da Argentina, descendente de povos do deserto do Atacama, viva há mais de 11 mil anos bebendo água contaminada com arsênico. Os indivíduos dessa área remota, no entanto, toleram quantidades de arsênico até 20 vezes maiores que os níveis considerados seguros. Em geral, os efeitos do arsênico no organismo incluem danos ao sistema imunológico, hemorragias, convulsões, coma e morte.

O novo estudo foi publicado na revista científica Molecular Biology and Evolution por uma equipe de cientistas da Suécia, liderada por Karin Broberg, professor da Universidade de Uppsala e do Instituto Karolinska. 

Os cientistas realizaram um amplo levantamento genômico de um grupo de 124 mulheres da região argentina dos Andes que haviam sido selecionada por metabolizar o arsênico. A medição é feita pelo nível do elemento na urina. O estudo localizou um conjunto de variações nos nucleotídeos - as "letras" do código genético - no gene conhecido como AS3MT. Essas variações estavam presentes com frequência muito menor em grupos de outras áreas, como o Peru e a Colômbia, que também fizeram parte da pesquisa. Os pesquisadores estimam que o aumento na frequência dessas variações ocorreu recentemente, entre 10 mil e 7 mil anos atrás, com base na idade de uma múmia recentemente desenterrada, e que tinha altos níveis de arsênico nos cabelos.

Assim, essa população andina se adaptou ao ambiente em que vivia por meio do aumento da frequência em variações genéticas que protegem de substâncias tóxicas. O conjunto de variações no gene AS3MT, localizado no cromossomo 10, são distribuídos em todo o mundo, com as maiores frequências em peruanos, nativos das Américas e da Ásia. Os autores especulam que as forças que levaram à adaptação local podem ter sido resultado de graves efeitos do arsênico na saúde. Segundo eles, a necessidade de metabolizar o arsênico com mais rapidez deve ter sido uma questão de vida ou morte em períodos ancestrais.

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