WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Marcha em prol da Ciência une diversos países

Organizado em resposta ao discurso anticientífico do presidente americano Donald Trump, ato visa conscientizar lideranças políticas a levar em consideração evidências científicas antes de elaborar e colocar em prática políticas públicas

Roberta Pennafort e Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2017 | 13h08

Mais de 600 cidades espalhadas por quase 70 países tiveram suas ruas tomadas neste sábado, 22, por milhares de cientistas e apoiadores num protesto internacional em defesa da Ciência. Organizada em resposta ao discurso anticientífico adotado pelo presidente americano Donald Trump, que já classificou o aquecimento global como uma farsa, a Marcha da Ciência teve por objetivo conscientizar as lideranças políticas a levar em consideração evidências científicas antes de elaborar e colocar em prática suas políticas públicas. No Brasil, 24 cidades aderiram ao ato.

No Rio, ainda pela manhã e sob chuva, cerca de 150 pessoas participaram da manifestação em frente ao Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Elas protestaram contra os cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, que chegam a 44% e resultam na redução de bolsas acadêmicas e de investimentos em pesquisas e em laboratórios.

Estudantes e professores de universidades do Estado, como a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além da UFRJ, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e de entidades de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz, levaram cartazes com dizeres como "Ciência não é gasto, é investimento" e tesouras gigantes, numa crítica aos cortes. 

Eles gritaram palavras de ordem contra o presidente Michel Temer (PMDB) e o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e destacaram em suas falas os riscos da falta de financiamento, no longo prazo, para o desenvolvimento da ciência no País. Citaram também o desestímulo para as novas carreiras representado pelas reformas trabalhista e da previdência do governo federal, e pelas novas regras para a terceirização. 

"Os cortes já vinham desde 2013, sempre com a alegação da crise, e se aprofundaram. Não há justificativa, é uma política equivocada, e que pode provocar um retrocesso grande. Ciência é algo que não se constrói da noite para o dia, mas que é fácil de destruir", disse o vice-presidente da SBPC, o físico Ildeu Moreira. "O auge dos investimentos foi em 2010, mas nunca chegamos a ter 1,2% do Produto Interno Bruto, quando países como Coreia do Sul e Israel têm 4%".

"Temos que reagir. Mostrar à sociedade brasileira que a ciência está de pé, afirmar o valor da educação. Se não há bolsas, se os laboratórios estão desconstruídos, damos uma sinalização objetiva para que os jovens se afastem da ciência", disse o reitor da UFRJ, Roberto Lerer. A instituição acumula déficit de R $ 160 milhões.

"Esperamos que este não seja um projeto de desmonte da ciência, que seja algo conjuntural e reversível", afirmou o diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Wilson Savino.

O MCTIC informou que está avaliando o impacto da redução orçamentária e pediu aos seus institutos que apresentassem prioridades e necessidades para 2017, na expectativa de que parte dos recursos seja descontingenciada ao longo do ano.

Mundo. Em Sidney, na Austrália, cientistas vestidos com túnicas brancas afirmavam que, numa época de tantas notícias falsas, o que o mundo precisa é de pensadores, não de negadores. Em cartazes, diziam ainda que “sem ciência é só ficção”. Na Áustria, o protesto lotou o Parque Sigmund Freud, em Viena, onde cientistas ressaltavam que “ciência não é opinião”. Em Bogotá, na Colômbia, o protesto teve o mesmo tom, reafirmando que a ciência é “indispensável”.

Em Washington, nos EUA, a marcha estava marcada para começar no entorno da Casa Branca e terminar em frente ao Capitólio, a sede do Congresso americano. De manhã, antes do início do ato, manifestantes já protestavam contra Trump, com os dizeres: “Tornar a América Inteligente de Novo”, em paródia ao slogan de campanha de Trump, “Tornar a América Grande de Novo”.

A administração Trump é cética em relação à contribuição da ação humana para o aquecimento global e ameaça abandonar o Acordo de Paris sobre o clima. O presidente americano também determinou cortes no financiamento à pesquisa científica e revogou uma série de regulamentações de caráter ambiental. “Esse governo nega o aquecimento global, o que contraria toda a evidência científica nesse sentido”, disse a cirurgiã veterinária Allison Haley, presente na marcha. 

Muitos dos participantes da marcha eram cientistas, como o químico ambientalista Barnabas Vandevender. “Parece que integrantes da atual administração dizem coisas que não são baseadas em fatos”, afirmou. “A ciência é importante para todos e cria melhorias que beneficiam todo mundo.”

A escritora Mag Masey disse que estava na marcha para defender que o dinheiro de seus impostos seja investido em pesquisa científica. “Assim nós podemos ter um mundo melhor amanhã”, observou. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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