Projeto é um entre vários que criaram próteses inteligentes

Um dos mais avançados é o da empresa californiana Ekso Bionics, que produz exoesqueletos para paraplégicos desde 2012

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

01 Junho 2014 | 05h00

SÃO PAULO - O projeto Andar de Novo é um entre vários no mundo que estão desenvolvendo exoesqueletos e outros tipos de próteses inteligentes voltadas para a reabilitação de pessoas debilitadas por lesões neurológicas e amputações.

Um dos mais avançados no mercado é o da empresa californiana Ekso Bionics, que produz exoesqueletos comercialmente para paraplégicos desde o início de 2012. O equipamento não utiliza EEG ou outras formas de interface cérebro-máquina. É baseado em conceitos biomecânicos, associados a sensores que conseguem "sentir a intenção do usuário" de dar um passo com uma determinada perna, de acordo com a maneira como seu peso e seu centro de gravidade se deslocam - um conceito semelhante ao do carrinho Segway, do inventor Dean Kamen.

O exoesqueleto, chamado Ekso, pesa 22 quilos, custa aproximadamente US$ 150 mil, e cerca de 65 exemplares já foram vendidos para centros de reabilitação na América do Norte, Europa e África, segundo a empresa. A primeira vez que um paciente se levantou e caminhou com ele foi em 2010, usando um protótipo experimental. A primeira venda comercial foi em fevereiro de 2012, para um hospital especializado em lesões medulares do estado do Colorado.

Desde então, segundo a empresa, cerca de 2 mil pacientes paraplégicos já caminharam com o equipamento, dando juntos mais de 1 milhão de passos. Após um período de treinamento, as pessoas caminham de forma autônoma, com o apoio de muletas. Clique aqui e aqui para ver vídeos da empresa.

Mesmo que alguém esteja disposto a pagar US$ 150 mil para ter um Ekso em casa, o equipamento não é otimizado para uso doméstico diário, mas para uso como ferramenta clínica de reabilitação - física e mental. "Caminhar é parte do que nos faz ser humanos", disse ao Estado o cofundador e chefe de tecnologia da empresa, Russ Angold. "Toda vez que um novo usuário fica em pé pela primeira vez é um momento muito emocionante."

Do ponto de vista puramente fisiológico, o ato de caminhar é importante para exercitar a musculatura, ativar a circulação e preservar outras funções biológicas dos membros e órgãos afetados pela paralisia - assim como a plasticidade do cérebro associada ao controle desses movimentos e funções.

A bateria do Ekso, por uma limitação de tamanho, dura de duas a três horas. "Para uso em centros de reabilitação isso é bastante adequado", avalia Angold. "Para alguém que queira usar pessoalmente o Ekso por mais de quatro ou cinco horas por dia, (a questão da bateria) começa a ser um desafio."

Apesar de o equipamento não estar diretamente conectado ao cérebro, Angold diz ver o Ekso também como uma forma de interface cérebro-máquina, só que mediada pelo corpo. "O usuário está 100% envolvido no controle do movimento. Se ele não deslocar o seu peso, o exoesqueleto não se mexe." Ainda assim, a integração desse tipo de tecnologia com mecanismos de controle direto pelo cérebro (por exemplo, via EEG) seria muito bem vinda para uma diversidade de aplicações, segundo Angold.

Diferencial. Além do controle cerebral via EEG, a interface cérebro-máquina do exoesqueleto do projeto Andar de Novo inclui um sistema de "feedback tátil", pelo qual sensores instalados na sola dos pés do robô transmitem sinais para uma espécie de manga eletrificada nos braços, de modo que o usuário tenha a sensação de estar pisando no chão. "Com essa transmissão dos pés para os braços, o cérebro dos pacientes é induzido a remapear as sensações táteis e reestabelecer a sensação de pisar o chão, caminhando como se não possuísse paralisia", informa a assessoria de imprensa do projeto.

O desenvolvimento de toda a parte de robótica do Andar de Novo (incluindo a "pele artificial" que fornece o feedback tátil) foi coordenada por Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique. "O sistema foi desenvolvido na França e testado no Brasil", diz a assessoria do projeto. A camisa que recebe os sinais dos sensores nos pés foi desenvolvida por Hannes Bleuler, da Escola Politécnica Federal de Lausane, na Suíça. 

Outros projetos que se destacaram na área de interface cérebro-máquina nos últimos anos incluem braços robóticos controlados por pacientes tetraplégicos, uma mão biônica com feedback tátil e uma série de outras "neuropróteses" inteligentes para amputados, que funcionam conectadas a nervos periféricos do usuário - algumas já disponíveis comercialmente, outras em estágio experimental.

** Outro exoesqueleto biomecânico que já está no mercado é o ReWalk. Clique aqui para ver vídeos da empresa.

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Miguel Nicolelis

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