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Rio+20

Proteção de oceanos divide opiniões

Herton Escobar

13 Junho 2012 | 22h 30

A recuperação de pesqueiros ameaçados é um dos os principais pontos de discórdia

A eliminação de subsídios que favorecem atividades de pesca destrutiva e a recuperação de estoques pesqueiros ameaçados de extinção foram os principais pontos de conflito nas negociações sobre desenvolvimento sustentável dos oceanos na quarta-feira, 13, na Rio+20. Uma das propostas que está sendo discutida no rascunho do documento final - que delineará os resultados da conferência - é a estipulação de um prazo até 2015 para recuperação de todos os estoques pesqueiros ameaçados ao redor do mundo.

 

A meta foi defendida pelo Brasil, mas outros países disseram que ela é irrealista. "Para muitos estoques é biologicamente impossível fazer essa recuperação, mesmo num prazo de décadas", argumentou o diplomata que representava o Canadá. "Deveríamos focar em compromissos realistas." Japão e Noruega, países com forte indústria pesqueira, também se posicionaram contra a meta de 2015. "Eu hesitaria em pedir aos nossos ministros que se comprometam com algo que sabemos ser biologicamente impossível", disse a representante da Noruega.

 

A África do Sul concordou com a posição brasileira de manter a meta. "Precisamos mandar um sinal político forte (de que é preciso agir)", disse o diplomata sul-africano.

 

Também discutiu-se muito o parágrafo do documento que propõe a eliminação de subsídios que contribuem para a prática de atividades pesqueiras ilegais ou nocivas ao meio ambiente - incluindo, também, uma data limite de 2015 para isso.

 

Em nenhum dos casos chegou-se a um texto final. As negociações continuam hoje e nos próximos dias, até a plenária final da conferência, no dia 22.

 

RISCO ELEVADO

Vários estudos científicos indicam que a grande maioria dos estoques pesqueiros do mundo estão sendo explorados acima do limite sustentável, com vários estoques considerados à beira do colapso. Em cima disso, há os impactos do aquecimento global, como elevação da temperatura e acidificação da água, com graves consequências para a biodiversidade marinha e a regulação do clima global.

 

"Os oceanos são o radiador do planeta; são eles que controlam o clima global. Se você mexe com esse radiador, você mexe com o planeta todo", disse ao Estado Luis Valdés, da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco, a agência das Nações Unidas para educação, ciência e cultura.

 

Ele criticou a postura das negociações climáticas, até mesmo do ponto de vista científico, dizendo que elas não levam em conta os limites biológicos e geofísicos dos oceanos - apenas dos ecossistemas terrestres. Por exemplo, a determinação de que 2 C é um limite aceitável de aquecimento global. "Dois graus a mais pode ser muito prejudicial para os oceanos", disse. "Muitas espécies marinhas não vão suportar isso." Segundo ele, porque a temperatura média dos oceanos oscila muito menos do que a temperatura atmosférica na superfície. O que significa que pequenas mudanças têm um impacto mais acentuado debaixo dágua.

 

PROTESTO

Um grupo de ONGs planeja divulgar hoje um manifesto de protesto sobre a falta de unidades de conservação (UCs) marinhas no Brasil. O País assumiu dentro da Convenção sobre Diversidade Biológica um meta de proteger 10% de seus ecossistemas costeiros e marinhos até 2020, mas hoje esse índice ainda é de apenas 1,5%.

 

As ONGs, entre elas a Conservação Internacional e o Instituto Baleia Jubarte, vão apresentar uma lista de projetos para criação de UCs marinhas que estão empacados no governo federal, e com as quais a taxa de proteção subiria para 4,5%.

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