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Reinvenção do dinheiro alivia a pobreza

No Quênia, "sistema bancário sem bancos" amplamente adotado pela população utiliza celulares para enviar valores por SMS; pesquisa revela que a ideia, agora adotada em 93 países, tirou 192 mil famílias da miséria

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Fernando Reinach ,
O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 03h00

O Quênia é um país pobre e grande parte da população vive com menos de US$ 2 por dia. Com 45 milhões de habitantes, tem somente 2,7 mil caixas eletrônicos. Pagar compras, transferir valores ou mesmo guardar o dinheiro são problemas para quem não tem acesso a bancos. E os bancos, dada a baixa renda da população, não se interessam em oferecer os serviços. Foi então que a população do Quênia reinventou o dinheiro.

Por volta do ano 2000, as operadoras de celulares cresceram rapidamente no Quênia, vendendo serviços pré-pagos similares aos existentes no Brasil. A pessoa vai a uma loja ou posto credenciado e compra créditos para falar, por exemplo, 60 minutos. Mas no Quênia uma pessoa podia comprar crédito e transferir uma parte para um outro telefone. Imagine uma mãe que compra 60 minutos e transfere, por meio de um simples SMS, dez créditos para o filho. Feita a operação, o telefone da mãe fica com 50 minutos e o do filho, com 10. 

Entre 2002 e 2007, a população descobriu um novo uso para essa transferência de crédito. É fácil de entender. Imagine que uma pessoa vá à feira e queira comprar uma dúzia de laranjas. Ela pega as frutas e tem de pagar R$ 10. O comprador pergunta ao vendedor: posso pagar em créditos de celular? Se o vendedor topar, o comprador manda um SMS para o celular do vendedor e transfere os créditos equivalentes a R$ 10. Já o vendedor pode ir a um bar e pagar seu almoço com créditos, transferindo-os para o dono, que por sua vez os utiliza para pagar seu empregado. Pronto, a população transformou o crédito de celular em dinheiro.

Em 2007, com ajuda de uma ONG e alguns cientistas, a companhia de celular aperfeiçoou o sistema. A empresa de telefonia passou a vender cada crédito por exatamente o valor da moeda local. Agora, a população podia carregar o celular com R$ 100. O valor podia ser usado para falar ou ser transferido para outros celulares, para pagar por mercadorias. Além disso os postos que vendiam créditos para celular passaram a poder trocar de volta o dinheiro que estava no celular por notas físicas e moedas. Assim, o vendedor da feira, após receber em seu celular o valor de tudo que vendeu, podia passar em uma banca que vendia créditos e converter o dinheiro eletrônico que estava no celular em notas.

Também houve a incorporação de um sistema de senha para proteger o dinheiro que estava no celular e autenticar os SMS que transferiam o dinheiro para outro telefone. Pronto, estava criado um sistema bancário sem bancos. O dono de um celular podia guardar dinheiro nele, enviar o dinheiro para qualquer parente, pagar suas contas e receber pagamentos. O sistema recebeu o nome de M-Pesa (M de móvel e Pesa, palavra em Swahili para dinheiro).

Hoje, o sistema é usado por toda a população. Dos 5 milhões de lares do Quênia, 96% têm pelo menos um membro que usa o M-Pesa. E os postos onde os celulares podem ser carregados e descarregados já chegam a 100 mil (ante os 2,7 mil caixas eletrônicos).

Dois cientistas do MIT, em Boston, acompanharam a adoção do M-Pesa, interessados em medir os efeitos dessa mudança na qualidade de vida das pessoas. Para isso, conduziram questionários em 3 mil residências espalhadas em 118 localidades. A pesquisa foi feita em 2008 e repetida em 2009, 2010, 2012 e 2014. Eles dividiram as residências entre as que tinham postos de troca na proximidade e as que não tinham. E subdividiram esses grupos em famílias lideradas por mulheres, por homens e assim por diante.

O resultado é impressionante. Com base nesses dados, os cientistas concluíram que o uso do M-Pesa retirou 192 mil famílias da pobreza, 2% de todas as existentes no país. Elas passaram a receber mais de US$ 2 por semana. E, mais importante, as razões para essa melhora puderam ser mapeadas. Ficou mais fácil para as famílias enfrentar crises financeiras; elas aumentaram as opções de trabalho e receita, puderam escolher melhor o que consumiam; aumentou a possibilidade de receberem ajuda e puderam, em muitos casos, abrir pequenos negócios, se tornando comerciantes. Outro aspecto interessante é que as famílias lideradas por mulheres se beneficiaram muito mais que as lideradas por homens.

Mas a prova mais cabal de que essa reinvenção do dinheiro foi benéfica é que hoje serviços como esse foram implementados em 93 países onde existem 411 milhões de celulares usando essa forma de dinheiro eletrônico. E nós, em países mais desenvolvidos, ainda usamos algo parecido, mas muito mais primitivo: cartões de crédito e débito. 

MAIS INFORMAÇÕES: THE LONG-RUN POVERTY AND GENDER IMPACTS OF MOBILE MONEY. SCIENCE, VOL. 354, PÁG. 1.288

* É BIÓLOGO.

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