Salmão, galinha e cérebro humano

Os seres humanos vêm diminuindo a taxa de conversão dos animais

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2017 | 03h00

É pouco romântico, mas carne nada mais é que soja, milho e outros vegetais transformados em músculo. Ao comer uma coxa de frango estamos comendo ração transformada em carne. 

Novas maneiras de efetuar essa transformação são a novidade. Os consumidores canadenses já podem comprar carne de um salmão transgênico. Essa modificação pode transformar o salmão em uma nova galinha. E na Califórnia você já pode degustar um hambúrguer feito pelo cérebro humano.

Os frangos são hoje as melhores máquinas de transformar ração em carne. No Brasil, as taxas de conversão são de 1,8 (1,8 quilo de ração se transforma em 1 quilo de frango). Os porcos vêm bem atrás, com uma taxa de conversão de 4, ou seja, precisam de 4 quilos de ração para produzir 1 quilo de carne. Já as vacas, coitadas, têm uma taxa de conversão por volta de 7, o que contribui para sua carne ser mais cara. É claro que a velocidade de conversão, o preço do alimento e os outros custos (gaiolas, vacinas, salários e impostos) também são importantes, mas a taxa de conversão é a principal característica biológica.

Vale lembrar que o sonho de toda mulher, e de quase todo homem, é ter uma taxa de conversão beirando o infinito: você come todo dia um monte e não aumenta de peso. As crianças aumentam rapidamente de peso pois têm uma taxa de conversão baixa. Essa taxa de conversão vai aumentando com a idade e fica praticamente infinita quando nosso peso se estabiliza. O mesmo ocorre com os animais. É por isso que os frangos são abatidos assim que sua taxa de conversão começa a aumentar, aos exatos 39 dias de idade.

Os seres humanos vêm diminuindo a taxa de conversão dos animais por meio da modificação genética. Nos frangos, entre 1960 e 2011, a seleção genética diminuiu a taxa pela metade e o frango se tornou a carne mais barata do mundo. Agora chegou a vez do salmão, meu peixe preferido.

O hormônio do crescimento melhora a taxa de conversão e aumenta a velocidade de transformação dos alimentos em massa muscular. Por isso, é usado para tratar crianças com problemas de crescimento. Foi pensando nisso que em 1989 um grupo de cientistas colocou no salmão do Atlântico (Salmon salar) um segundo gene do hormônio de crescimento. O resultado foi esse salmão modificado que cresce muito mais rápido e atinge o triplo do tamanho. É o mesmo que injetar hormônio de crescimento em uma criança normal.

Os criadores de salmão ficaram felizes. Nos tanques, o peixe chega ao ponto de abate em metade do tempo, consumindo menos alimento. Sua taxa de conversão melhorou. Animados, os cientistas criaram uma empresa para comercializar a invenção. Bastava conseguir a aprovação do governo. Mas a aprovação demorou 27 anos. Nesse meio tempo foram aprovadas a soja, o milho e o algodão transgênico. Chegaram ao mercado as vacinas e medicamentos transgênicos. E nada de aprovação do salmão.

Agora ele foi aprovado e as primeiras bateladas, produzidas no Panamá, foram vendidas no Canadá. A produção vai começar ali e nos Estados Unidos. Logo esse salmão vai chegar ao Brasil e aí, talvez, esse peixe delicioso fique mais barato, podendo concorrer com o frango. Soja transgênica transformada em peixe transgênico.

Não gostou? Não quer comer carne, mas gosta de hambúrguer? Fique feliz, existe uma solução para seu dilema. Nos últimos anos surgiram empresas especializadas em enganar nosso paladar. Elas utilizam proteína de soja e de outros vegetais misturados com gordura vegetal e heme (o composto que retém o ferro e dá a cor vermelha à carne) para produzir uma maçaroca que engana perfeitamente nossos sentidos. Tem a consistência, o cheiro, o sabor, a cor e o tato de carne moída.

E, quando essa “carne” é colocada na brasa, produz algo praticamente indistinguível de um verdadeiro hambúrguer. É a chamada carne vegetal, um nome que é quase pecado mortal. Se ela se tornar barata e for aceita pela população, não precisaremos mais de animais para transformar vegetais em carne. Seremos todos vegetarianos consumidores de hambúrguer. Esse truque já foi executado com sucesso quando foi criada a margarina, algo muito semelhante à manteiga, mas feita com produtos vegetais.

Nesse novo mundo não será a galinha e o salmão que vão transformar grãos em carne, mas sim o Homo sapiens, agora usando o cérebro e não os músculos.

* É BIÓLOGO

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