Sete dias no escuro

Existem sete dias misteriosos no início de nossa existência. Nesses dias já deixamos de viver livres e soltos, mas somos pequenos demais para sermos observados. Agora, graças a uma feliz combinação de novas técnicas de reprodução assistida e mudanças regulatórias, podemos, pela primeira vez, estudar o que acontece na nossa segunda semana de vida.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2016 | 03h00

O óvulo se solta do ovário e começa a descer pelas trompas, um estreito tubo que vai transportá-lo para o útero. Se no caminho encontrar espermatozoides, acaba penetrado por um deles, ocorre a fecundação e o tempo começa a contar. Durante os primeiros sete dias após a fecundação essa primeira célula se divide diversas vezes enquanto continua sua viagem em direção ao útero. Os eventos dessa primeira semana são fáceis de observar. Isso porque faz mais de duas décadas que os famosos bebês de proveta começaram a ser produzidos.

Como os eventos dessa primeira semana ocorrem na mulher durante a migração trompa abaixo, foi fácil descobrir as condições necessárias para eles ocorrerem numa proveta (na verdade, os laboratórios usam pequenas placas de Petri), sob escrutínio constante dos médicos e cientistas. Ou seja, podemos ver o que está acontecendo, dia a dia, minuto a minuto. Por isso essa fase de nossa vida é bem conhecida.

Mas, na semana seguinte, entre o 7.º e o 14.º dia, esse amontoado de células começa a se transformar em um embrião. Ele já tem uma cavidade interna e muitas células já se agruparam. Para continuar a se desenvolver, precisa achar seu ninho, nidar, o que no interior de uma mulher significa chegar ao útero, aderir à parede interna e penetrar. Uma vez no ninho, começa a se formar a placenta e surgem os diferentes tipos de células que vão formar o embrião. O problema é que os eventos dessa semana são quase impossíveis de observar. São os sete dias escuros. Sete dias envolvidos em mistérios. Sete dias sobre os quais sabemos pouco, e grande parte do que sabemos foi descoberta estudando embriões de outros animais, como ratos e macacos.

No interior da mãe o embrião tem menos de um milímetro de diâmetro e se encontra em alguma parte do interior dessa esfera do tamanho de um punho cerrado que é o útero. Lá no meio, pequeno e imóvel, ele fica quase invisível.

Os embriões são novamente observáveis da terceira semana em diante. Aí já são grandes o suficiente para serem observados em um exame de ultrassom e muitas vezes já têm um pequeno coração. O problema é descobrir o que acontece durante a semana em que eles ficam totalmente escondidos dos olhos e instrumentos dos cientistas.

Agora isso é possível. Em muitos países, foi acumulado um número enorme de embriões estocados, à espera de serem implantados. Como muitas famílias não desejavam mais filhos, eles eram descartados. Nesses países, foi dada a opção aos pais de doá-los para pesquisa. Mas seu desenvolvimento só pode ser estudado durante mais uma semana, e tem de ser interrompido antes que se formem as células do sistema nervoso.

Foi usando esses embriões que um grupo de cientistas começou a estudar o que acontece durante a semana escura. Para isso, eles adaptaram uma técnica desenvolvida para embriões de camundongos. Eles “enganam” os embriões e os “convencem” de que uma camada de material que recobre uma placa de plástico é a superfície interna do útero onde normalmente eles se alojam. Muito do que se imaginava foi confirmado, mas algumas diferenças importantes entre o desenvolvimento do embrião humano e o embrião de outros mamíferos foram detectadas. Novos tipos de células foram detectados e muitos detalhes do processo de implantação estão sendo descobertos.

E essas descobertas vão continuar nos próximos anos, enquanto houver pais dispostos a doar os embriões que iriam descartar, e houver órgãos reguladores capazes de garantir o uso ético desse material. Esses novos conhecimentos vão permitir que mais casais considerados inférteis possam realizar o desejo de ter filhos. Acho que vale a pena.

MAIS INFORMAÇÕES: SELF-ORGANIZATION OF THE IN VITRO ATTACHED HUMAN EMBRYO. NATURE VOL. 533 PAG. 251 2016.

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