Sexo em altas temperaturas

No calor do Sudeste australiano, os cientistas descobriram que o sexo pode tomar direções inesperadas. Lá machos se transformam em fêmeas quando o clima esquenta.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 03h00

É nessa região semiárida que vivem os dragões barbados, um réptil com cara de mau, conhecido entre os cientistas por Pogona vitticeps. Nesses répteis as fêmeas têm dois cromossomos sexuais distintos (ZW) e os machos somente um tipo (ZZ). Até recentemente, se acreditava que o sexo de um indivíduo era selado pelo destino no momento da fecundação. Se o embrião tem um cromossomo Z e um W é fêmea, se recebe dois cromossomos Z é macho. Meio ambiente ou experiências vividas, nada muda o determinismo genético. Pois bem, foi essa crença que veio abaixo.

Tudo começou quando os cientistas estavam analisando animais coletados no deserto australiano. De 131 animais coletados, eles descobriram que 11 das fêmeas tinham dois cromossomos ZZ e, portanto, deveriam ser machos. Mas esses animais colocavam ovos em vez de produzir espermatozoides e, portanto, apesar de ter genes de machos (ZZ), eram fêmeas do ponto de vista reprodutivo e comportamental. Eles foram denominados ZZf para poderem serem distinguidos dos machos, que foram denominados de ZZm e das outras fêmeas (ZW). 

Mas isso deixou os cientistas encafifados. Se um embrião era ZZ, o que o levava a se transformar em macho (ZZm) ou em fêmeas (ZZf)? Se não eram os cromossomos que ele recebia no momento da fecundação, deveria ser alguma fator ambiental. E essas fêmeas ZZ, em que seriam diferentes das fêmeas “normais”, as ZW?

A resposta veio de experimentos feitos em laboratório. Como os cientistas tinham machos (ZZm) e fêmeas (ZZf) coletados na natureza, eles resolveram cruzar esses animais. Os ovos provenientes desses cruzamentos foram separados em grupos e colocados em ninhos com diferentes temperaturas, simulando o que ocorre no deserto (esses répteis não chocam os ovos, simplesmente os escondem em buracos ou fendas). Foram simulados “ninhos” com diferentes temperaturas, entre 24°C e 36°C. 

Quando os bichos nasceram foi que veio a surpresa. Nos ninhos que estavam em baixas temperaturas todos os animais que nasceram eram ZZm, ou seja, machos. Nos ninhos em que os ovos foram incubados a altas temperaturas, todos os animais que nasceram eram ZZf, ou seja, fêmeas. A temperatura em que 50% dos animais nasciam machos e 50% fêmeas era 33,5°C. Em outras palavras, o que estava determinando o sexo desses animais com dois cromossomos Z era a temperatura, e não os cromossomos. Portanto, na natureza, quando machos ZZ acasalam com fêmeas ZW, os filhotes ZW são todos fêmeas, e os filhotes ZZ podem ser todos machos, caso a temperatura do ninho seja baixa, ou podem ser todos fêmeas, caso a temperatura seja alta. 

Esta descoberta é impressionante. É a primeira vez que se descobre uma espécie em que convivem dois mecanismos de determinação de sexo, um que depende da genética e, portanto, dos cromossomos (Z e W) e outro que depende do meio ambiente, no caso a temperatura. Mas esta descoberta também tem uma consequência nefasta. Imagine que a temperatura global realmente aumente. Nesse caso, todos os animais ZZ vão nascer fêmeas e esse excesso de fêmeas vai se acasalar com os poucos machos. Imagino que os machos vão gostar da abundância de fêmeas. Mas esses cruzamentos vão gerar somente fêmeas e rapidamente a espécie vai se extinguir por falta de machos. 

Hoje, esses répteis usam esse sistema duplo para fazer uma regulagem fina do número de machos e fêmeas na população, mas esse truque que hoje é útil pode levar esses animais à extinção caso haja um aumento na temperatura do meio ambiente.

Quer se divertir com um exercício mental? O que aconteceria em nossa sociedade se o Homo sapiens usasse um mecanismo semelhante ao dos répteis para determinar o sexo dos indivíduos. Imagine uma situação em que bebês do sexo feminino XX se transformassem em machos funcionais se gestados por mulheres com algum tipo de febre crônica. Ou mesmo o oposto, se bebês de sexo masculino XY se transformassem em fêmeas em mães com febre? 

MAIS INFORMAÇÕES: SEX REVERSAL TRIGGERS THE RAPID TRANSITION FROM GENETIC TO TEMPERATURE-DEPENDENT SEX. NATURE VOL 523 PAG. 80 2015

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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