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Torre ‘gigante’ vai monitorar Amazônia

- Atualizado: 14 Setembro 2014 | 18h 09

Maior do que Torre Eiffel, Atto começa a ser erguida no meio da floresta; equipamento permite analisar mudanças climáticas

Começou a ser erguida, no coração da selva amazônica, uma torre de 330 metros de altura que vai monitorar de forma contínua, por pelo menos 20 anos, as complexas interações entre a atmosfera e a floresta. Repleto de instrumentos científicos de alta tecnologia, o observatório - que será o maior e mais completo do gênero no mundo - medirá com precisão sem precedentes os fluxos amazônicos de calor, água e gás carbônico, além de analisar minuciosamente os padrões de ventos, umidade, absorção de carbono, formação de nuvens e parâmetros meteorológicos.

Com o estudo das trocas de massa e energia que ocorrem entre o solo, a copa das árvores e o ar acima delas, a Torre Alta de Observação da Amazônia (Atto, na sigla em inglês) deverá gerar conhecimento inédito sobre o papel do ecossistema amazônico no contexto das mudanças climáticas globais.

A logística para a construção da estrutura e os esforços empreendidos para viabilizar o projeto foram dignos de uma epopeia. Em 2007, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck de Química, da Alemanha, formalizaram a parceria para construir o observatório - um sonho de décadas. 

Foi preciso realizar extensos estudos para escolher o local, pois, destinada a monitorar o sensível ambiente amazônico, a torre precisaria ser construída longe de qualquer aglomeração humana. Ela deveria também se situar em uma área de terra firme da floresta, o que permitiria extrapolar para todo o bioma os dados obtidos.

Ao longo de sete anos, cientistas, técnicos e operários percorreram incansavelmente o trajeto que vai de Manaus até o local escolhido para a torre: depois de 170 quilômetros de estrada até o Rio Uatumã, na região da Barragem de Balbina, é preciso rodar mais 40 km em estradas de terra, em carros com tração nas quatro rodas. A partir daí, segue-se um trecho de 65 km em lanchas até uma trilha de 13 km mata adentro. “Tínhamos de percorrer essa trilha em quadriciclos, usando um trator para os equipamentos mais pesados. Era um caminho acidentado e difícil”, contou um dos coordenadores do projeto Atto, Antonio Manzi, do Inpa. 

Desafios. Em péssimas condições, a antiga trilha precisava ser restaurada para viabilizar o início da construção da torre. Mas, depois de longos processos para a liberação dos recursos do projeto - custeado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo governo alemão - a concorrência pública para restauração da trilha atrasou tanto que se tornou inviável. “Enquanto isso, seguimos fazendo medições e construindo torres menores, auxiliares, para não deixar o projeto morrer. Finalmente, a trilha estava tão degradada que o orçamento para restauração, de R$ 1,1 milhão, seria triplicado. Tornou-se mais barato construir um novo terminal, de R$ 2 milhões. Mas aí foi preciso iniciar um longo processo de licenciamento ambiental”, disse Manzi. 

O custo total do projeto foi de cerca de R$ 20 milhões, incluindo os R$ 7,5 milhões da construção da torre, além de equipamentos e obras.

Além de duas torres de monitoramento de 80 metros, construídas a cerca de um quilômetro do local da Atto, foram construídos alojamentos para 25 pessoas e uma pequena instalação laboratorial no local. Só em 2014 as fundações da torre Atto foram iniciadas: a estrutura será ancorada por cabos de aço em blocos que somam 170 metros cúbicos de concreto, com 400 toneladas. Na primeira semana deste mês, a torre começou a ser erguida. Mas, antes disso, foi preciso transportar por mais de 4 mil km a estrutura do gigante metálico. 

“O projeto da torre foi feito pela empresa paranaense San Engenharia. Todas as partes de aço da torre, incluindo os cabos de sustentação e parafusos, foram levados para o local da construção por seis carretas, a partir de Curitiba”, disse Manzi. 

Passando por cinco Estados, as carretas percorreram cerca de 3,1 mil km até Porto Velho. Dali seguiram por mais 200 km até o cruzamento com a Rodovia Transamazônica, em Humaitá, no Amazonas, onde foram embarcadas em uma balsa no Rio Madeira. Foram quase 1 mil km de balsa, passando pelos Rios Amazonas e Uatumã, até que as carretas pudessem desembarcar e pegar a estrada exclusiva do projeto.

Dimensões. Os pesquisadores não têm a menor dúvida de que a saga amazônica da torre Atto valerá a pena. Para eles, a importância científica da torre é tão alta quanto ela. A floresta amazônica é um dos ecossistemas mais sensíveis do mundo e sua influência na estabilização climática afeta todo o planeta. Para entender o que acontecerá com o clima mundial no futuro, é preciso conhecer a fundo os processos físicos, químicos, biológicos e geológicos do bioma. 

“Eu não gosto quando as pessoas falam da torre Atto atendo-se apenas à comparação do seu tamanho com a Torre Eiffel. O foco não é esse. A torre nos ajudará a responder inúmeras incertezas em relação às mudanças climáticas globais”, disse o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), outro dos coordenadores da torre Atto, que integra o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). “Vamos diminuir as incertezas e contribuir para aprimorar a representação da Amazônia e outras áreas tropicais úmidas nos modelos climáticos”, afirmou.

A grande altura da torre, no entanto, traz vantagens científicas decisivas. O alcance na camada limite da atmosfera permite a obtenção de um sinal muito estável diante das turbulências e variações nas massas de ar sobre a floresta. “O programa LBA opera cerca de dez tores de fluxos de carbono na Amazônia. Elas têm entre 54 e 85 metros. A torre Atto é muito mais sensível e integrará uma área muito mais extensa de floresta”, disse Artaxo. 

Segundo ele, serão monitorados com precisão inédita os gases de efeito estufa liberados pela floresta e analisados a radiação solar, o ciclo hidrológico, as partículas de aerossóis e seus efeitos sobre a vegetação e sobre os ciclos de nutrientes na floresta. Ela permitirá entender os processos de convecção, ligados à formação de nuvens na região. “Tudo isso é fundamental para entendermos se nas próximas décadas a Amazônia continuará a absorver carbono da atmosfera como faz agora - o que afeta todo o mundo.”

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