JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Um happy hour com a ciência

Programa permite tirar cientistas da academia e pôr em bares para discutir barbas, por exemplo

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2018 | 03h00

SAO PAULO - “Demorou muito tempo para eu sair do armário, mas hoje eu admito com tranquilidade: sou cientista.” Com essa confissão cômica, o psicólogo Altay Lino de Souza abriu a programação do Pint of Science no Gola Solta, na Vila Clementino, um dos 12 bares que participam do festival de divulgação científica neste ano em São Paulo.

As mesas ficaram lotadas para ouvir o pesquisador do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) falar sobre seus estudos envolvendo questões biológicas e culturais ligadas à barba. Sim, da barba humana — aqueles pelos que brotam no rosto dos homens, fertilizados pela testosterona. 

Pouca gente já parou para pensar sobre porque a barba existe e como ela influencia a percepção social das pessoas em diferentes culturas. Mas ele parou. E a plateia também parou para ouvir o que ele tinha a dizer sobre isso — porém, sem abrir mão da cervejinha e dos petiscos, que os garçons não paravam de levar de um lado para o outro.

“Essa é a proposta do Pint”, disse a doutoranda da Unifesp e coordenadora do evento no bar, Marcela Nunes. “O objetivo é que as pessoas fiquem o mais soltas possível; e evitar que isso vire uma aula.”

Originalmente, o evento iria acontecer no andar de cima do bar — com capacidade para cerca de 50 pessoas —, mas teve de ser movido para o salão maior, no andar de baixo, com 70 lugares, por causa da demanda. “Superou em muito a nossa expectativa”, disse a gerente Jane Rodrigues. O bar abriu ontem só para o evento, e além das 70 reservas, havia uma lista de espera com mais 50 nomes. 

“Não é lindo isso?”, vibrou Marcela. “E depois dizem que o brasileiro não gosta de ciência.”

Muitos dos presentes eram alunos ou professores universitários, mas nem todos. “Achei a proposta do evento fantástica”, disse Ana Aurélia Pereira, de 42 anos, que é formada em Propaganda e Marketing e trabalha como profissional de pesquisa mercadológica. Ela ficou sabendo do Pint of Science pelo Facebook e veio por conta própria, com um amigo estatístico. “Viemos por ‘nerdisse’ mesmo”, brincou. “Adoro ciência.”

Iniciado em 2013, na Inglaterra, o Pint of Science ganhou rapidamente o mundo, e hoje é considerado o maior festival internacional de divulgação científica. Este ano vai acontecer em 21 países. No Brasil, já são 56 municípios participantes, com mais de 500 eventos distribuídos ao longo de três dias.

A proposta é tirar os cientistas de dentro dos muros da universidade, despi-los da formalidade acadêmica e botá-los em uma mesa de bar ou restaurante para “sair do armário”. Lá, podem conversar com a sociedade sobre ciência de forma descontraída, simples e divertida. Câncer, transgênicos, esquizofrenia e partículas elementares do universo eram alguns dos temas disponíveis no cardápio paulista ontem.

Sucesso. No ano passado, o festival atraiu cerca de 20 mil pessoas, em “apenas” 22 cidades do País — comparado a 56 hoje. “Quase chorei (de alegria) quando vi os números”, disse a coordenadora nacional do Pint of Science no Brasil, Natalia Pasternak Taschner, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). O festival brasileiro já é o maior do mundo, empatado com o da Inglaterra. Entre os demais municípios que recebem a iniciativa, também estão São Carlos e Araraquara, no interior paulista.

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