Divulgação/Polícia Federal
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USP recebe 2,4 mil fósseis encontrados com quadrilha

Apreendido pela PF, material que seria vendido a museus europeus ficará à disposição da comunidade científica para estudos

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2014 | 19h16

SÃO PAULO - Cerca de 2,4 mil fósseis e artefatos arqueológicos apreendidos pela Polícia Federal (PF) foram entregues à Universidade de São Paulo (USP) nesta quinta-feira, 16. O material foi apreendido na operação Munique, deflagrada em outubro do ano passado, como informou a coluna "Direto da Fonte", da jornalista do Estado Sonia Racy.

Os fósseis eram extraídos principalmente da Bacia do Araripe, no Ceará e seriam vendidos para museus privados na Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos e países asiáticos, de acordo com a PF. Na USP, eles serão incorporados à coleção paleontológica do Instituto de Geociências (IGc) e ficarão à disposição da comunidade científica para pesquisas e ensino.

A operação foi desencadeada a partir da interceptação de uma remessa de pedras semipreciosas que seria enviada ao exterior pelo correio, mas cuja documentação apresentava irregularidades. "Durante a investigação, descobrimos toneis com pedras na superfície e fósseis cuidadosamente acondicionados no fundo", disse o delegado da PF que coordenou a operação, Adauto Machado, chefe da Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e Patrimônio Histórico.

Segundo Machado, o principal articulador da organização criminosa, cujo nome não foi divulgado, foi condenado em primeira instância a três anos de prisão e a pagar quase R$ 2 milhões em multas. "A maior parte dos fósseis apreendidos na operação foram localizados na casa desse indivíduo, em São Paulo. Outra parte foi localizada em Minas Gerais", disse Machado. 

De acordo com ele, o líder da quadrilha será submetido a outro processo, com mais sete brasileiros, dois franceses e três alemães. Eles responderão por crimes de furto qualificado de bem da União, receptação, contrabando e organização criminosa. Somadas, as penas podem chegar a vinte anos de prisão. Ninguém está preso no momento.

Machado explicou que membros da quadrilha no Ceará arregimentavam pessoas para coletar os fósseis naquele Estado. O material era então levado para a cidade de Curvelo, em Minas Gerais, e depois enviados para a exportação pelos portos de Santos e do Rio de Janeiro. 

Importância científica. De acordo com Juliana Leme, professora de paleontologia do IGc-USP, a universidade recebeu os fósseis lacrados pela PF, acompanhados de laudos técnicos da perícia. O processo para retirar o lacre, identificar, acondicionar e guardar o material deverá se estender pelo período de um ano. 

Segundo ela, a Bacia do Araripe é uma região com grande diversidade de fósseis em condição de rara preservação. "Os fósseis dessa região são considerados um tesouro científico brasileiro - por isso são tão visados por contrabandistas. O material enviado à USP é belíssimo, com muitas peças raras. Vários dos fósseis estão em grau incomum de preservação", afirmou.

De acordo com Juliana, as peças apreendidas foram muito bem escolhidas e bem preparadas, indicando que membros da quadrilha tinham conhecimento técnico de paleontologia. "A impressão é que as peças foram escolhidas a dedo. Certamente os contrabandistas não são leigos", disse Juliana. Segundo ela, o IGc já é depositário de outras coleções de fósseis apreendidas pela PF, mas nenhuma dessa extensão. O instituto foi escolhido como destino das peças por ter totais condições de dar a elas o tratamento e uso científico adequado.

O material apreendido inclui fósseis de pterossauros, répteis, plantas, insetos e peixes. "É um material diversificado e vamos ter um trabalho muito grande para acomodá-lo. Uma equipe grande de pesquisadores trabalhará nisso", afirmou. Segundo ela, a coleção científica de paleontologia do IGc é a maior do Estado, com cerca de 30 mil peças. Os novos 2,4 fósseis foram considerados um aporte importante, com grande importância científica. "Esse material será muito útil para a pesquisa e para o ensino", disse.

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