Kepler/Nasa
Kepler/Nasa

Via Láctea pode ter bilhões de planetas na zona habitável

Estudo usou método de 250 anos para calcular probabilidade de existência de planetas situados em órbita que permitiria água e vida

Fabio Castro, O Estado de S. Paulo

18 Março 2015 | 08h00

Segundo um grupo de cientistas da Dinamarca e da Austrália, a Via Láctea pode ter "vários bilhões" de planetas situados na chamada "zona habitável", isto é, orbitando em torno delas a uma distância que permitiria a existência de água líquida em suas superfícies. Essa condição, de acordo com os cientistas seria indispensável para a potencial existência de vida. 

Analisando sistemas planetários da Via Láctea com o satélite Kepler, da Nasa, os cientistas da Universidade Nacional Australiana e do Instituto Niels Bohr de Copennhaguen calcularam a probabilidade para o número de estrelas que podem ter planetas na zona habitável. Os cálculos mostram que bilhões de estrelas da galáxia podem ter de um a três planetas na zona habitável. O estudo foi publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, nesta quarta-feira, 18.

Utilizando o satélite Kepler, da Nasa, astrônomos já descobriram milhares de exoplanetas - como são chamados os planetas que não pertencem ao nosso Sistema Solar - e em muitos casos, há vários planetas em órbita em torno de uma só estrela. Na Via Láctea, já foram descobertos cerca de mil planetas em torno de estrelas da Via Láctea, além de aproximadamente 3 mil potenciais planetas. Várias das estrelas têm sistemas planetários que têm de dois a seis planetas, mas as estrelas podem ter uma quantidade maior de planetas que as observáveis pelo Kepler. O satélite tem melhor desempenho na busca de grandes planetas em órbitas relativamente próximas às suas estrelas. Esses planetas, no entanto, podem ser inóspitos e quentes demais para ter vida. 

Método. Para investigar se os sistemas da Via Láctea poderiam ter planetas na zona habitável, os cientistas fizeram cálculos baseados em uma nova versão de um método de 250 anos, conhecido como Lei de Titius-Bode. Formulada em 1770, a lei permitiu o cálculo correto da posição de Urano mesmo antes da descoberta do planeta. A lei de Titius-Bode postula que há uma certa razão entre os períodos de órbita dos planetas em um sistema solar. Assim, a razão entre o período de órbita do primeiro e do segundo planetas é a mesma que a razão entre o segundo e o terceiro planetas - e assim por diante. Com isso, ao saber quanto um dos planetas leva para dar uma volta em torno de sua estrela, é possível calcular o tempo de órbita dos planetas vizinhos e, a partir daí, calcular sua posição no sistema planetário. A lei também permite calcular se um planeta está "faltando" na sequência.

"Decidimos usar esse método para calcular as posições potenciais de 151 sistemas planetários, onde o satélite Kepler havia encontrado de três a seis planetas. Em 124 desses sistemas planetários, a lei de Titius-Bode apontava precisamente a posição dos planetas. Usando o mesmo método, nós tentamos prever onde poderia haver mais planetas em outros sistemas mais distantes. Mas nós só fizemos os cálculos para planetas onde havia chance de fazermos observações com o Kepler", disse um dos autores do estudo, Steffen Kjær Jacobsen, pesquisador de Ciência Planetária e Astrofísica da Universidade de Copenhagen.

Em 27 dos 151 sistemas planetários, os planetas que haviam sido observados não se enquadravam na lei de Titius-Bode, à primeira vista. Seguindo os padrões de posicionamento, os pesquisadores tentaram então acrescentar nesses sistemas os planetas que pareciam estar faltando entre os que já são conhecidos. Dessa maneira, eles concluíram que deveria haver 228 planetas nos 151 sistemas planetários.

"A partir daí, fizemos uma lista de 77 planetas em 31 sistemas planetários prioritários e fechamos o foco neles, que têm grande probabilidade de ser detectados pelo Kepler. Nós incentivamos outros pesquisadores a buscá-los. Se eles forem observados, será uma indicação de que a teoria se sustenta", disse Jacobsen. Os sistemas planetários prioritários, segundo Jacobsen, são os que já tinham planetas confirmados na zona habitável, ou os que só precisaram de um único planeta extra "teoricamente" adicionado.

"Nesses 31 sistemas planetários, nossos cálculos mostraram que deve haver uma média de dois planetas na zona habitável. De acordo com as estatísticas e os indícios que temos, uma boa parcela dos planetas na zona habitável serão planetas sólidos onde pode haver água líquida e vida", disse Jacobsen. Quando os mesmos cálculos são extrapolados para a Via Láctea, a conclusão é que pode haver bilhões de estrelas com planetas na zona habitável.

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