Ary e Max

Estadão

07 Dezembro 2009 | 09h40

A maioria dos jornalistas que se encontram atualmente na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) deve passar boa parte do dia de hoje a bordo do Navio de Apoio Oceanográfico (NAp Oc) Ary Rongel, para conhecê-lo e falar com o comandante, capitão-de-mar-e-guerra Paulo Rui Menezes Capetti. Como quem acompanha este blog desde o início sabe, já passei alguns dias a bordo do Ary e, como as vagas no bote são limitadas — assim como o número de viagens que podem ser feitas com o mar como está, com pedaços de gelo boiando aqui e ali — fiquei para trás.

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Nas imagens, grupo de jornalistas parte para visita ao Ary na Baía do Almirantado

Mas isso me fez lembrar de que tenho muitas anotações sobre o Ary e seu parceiro no programa antártico, o Navio Polar (NPo) Almirante Maximiano, que ainda não partilhei com os leitores. Vamos a elas, então.

Uma impressão que se tornou muito comum quando do lançamento do Maximiano, comumente chamado de Max ou “Tio Max” pelo pessoal a bordo, foi a de que o novo navio tornava o Ary, que atua no programa antártico desde 1994, obsoleto: que um navio iria substituir o outro. Mas nenhuma das pessoas envolvidas com as atividades da Marinha Brasileira na Antártida que ouvi apoiou esse ponto de vista.

Sim, o Max é maior, mais moderno e tem cinco laboratórios – contra dois do Ary  – mas sua principal vocação é pesquisa, não transporte e logística. Isso faz com que o Ary Rongel, com uma capacidade de carga muito superior, continue a ser essencial para as atividades brasileiras no continente gelado.

(Como, aliás, as dificuldades causadas pelo atraso da chegada do navio a Ferraz em novembro deixaram bem claro)

 “O Ary não vai ser aposentado tão cedo”, disse, a bordo do Ary Rongel, o capitão-de-fragata André Schumann Rosso, que desde 2006 é o encarregado da logística do Programa Antártico.

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 Registro do tempo e da extensão de serviço do Ary Rongel ao Brasil

Se há alguma rivalidade entre as duas embarcações, ela provavelmente não vai além daquilo que o pessoal da Marinha chama de “fazer guerra”, a troca de provocações bem-humoradas que ajuda a aliviar a rotina da vida no mar. Relações de afeto unem os navios: tanto o comandante do Maximiano, capitão-de-mar-e-guerra Sérgio Ricardo Segóvia Barbosa, quanto o imediato, Horacio Lopes Senior, já serviram a bordo do Ary. Segóvia fez parte da primeira tripulação do navio. Com isso, seu nome aparece nas placas comemorativas que registram a tripulação inaugural das duas peças navais do programa antártico.

“Sempre falei que meu sonho era, um dia, comandar o Ary”, diz ele, no amplo passadiço – a central de comando – do Almirante Maximiano. “E eu dizia isso para todo mundo, o tempo todo”, prossegue. “Como o primeiro comandante do Almirante Maximiano, é como se o sonho se realizasse com um upgrade”.

O passadiço do Ary Rongel é bem menor que o do Max. Os equipamentos de comando e navegação comprimem o espaço de circulação de pessoas, que não lembra em nada os amplos corredores livres e a vista panorâmica do mar glacial oferecidos pela central de comando do navio polar. Mas o capitão Capetti, que assumiu o posto à frente da embarcação em abril deste ano, fala do Ary com um orgulho que remete ao velho sonho do capitão Segóvia.

“Os navios são complementares”, afirma ele, acrescentando que a presença do Max em águas antárticas “não traz mudança significativa nas atribuições deste navio”.

 “O Ary é um navio de apoio logístico, com grande capacidade de carga e uma capacidade limitada de pesquisa”, explica, por sua vez, Segóvia. “Já o navio polar é um navio de pesquisas”.

O Almirante Maximiano ainda não está completo: diversos equipamentos de apoio à pesquisa científica, incluindo sensores e dois guinchos, serão instalados a partir de abril de 2010. O navio polar deverá atingir seu pleno potencial apenas no próximo verão antártico, ainda sob o comando de Segóvia, que passará duas temporadas à frente do Max.

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O passadiço do Almirante Maximiano, no mar da Antártida

Construído em 1981, o Ary tem uma vida útil estimada até 2016, mas reformas e restaurações podem prorrogar isso – o próprio Almirante Maximiano tem, por base, um navio americano construído em 1974 para atuar na exploração de petróleo, que posteriormente foi reformado na Noruega em 1988 e então uma segunda vez, em 2008, na Alemanha, já sob as especificações da Marinha Brasileira, para atuar na Antártida.

“Não se fala em aposentadoria”, afirma Capetti, assim que o assunto de uma eventual retirada do Ary é mencionado, recusando-se até mesmo a oferecer uma estimativa da longevidade do navio. “Desmobilização é uma decisão muito difícil. Acredito que o Ary ainda tem um bom período de serviços a prestar pela frente”.

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