Conspirações e bruxarias

Estadão

01 Setembro 2010 | 08h10

O centro de estudos (“think tank”) britânico Demos lançou um relatório chamado

Documento

(“O Poder da Irracionalidade”) onde analisa o papel das teorias conspiratórias na formação e atuação  de grupos terroristas.

O trabalho conclui que, embora não seja possível ligar diretamente o pensamento conspiratório ao extremismo ou tratá-lo como “causa imediata da violência”, ele ajuda a manter grupos radicais unidos e a empurrá-los na direção a atos cada vez mais desesperados. Isso se dá de três maneiras:

1. Ao criar uma “demonologia do outro”, que define o inimigo e, por tabela, define a própria identidade do grupo radical (que é o conjunto daqueles que se opõem ao “demônio”);

2. Deslegitima as dúvidas quanto à causa e os apelos à ação moderada, lançando sobre seus autores a pecha de agentes ou inocentes úteis a favor da conspiração; e

3.  Oferece ao grupo um quadro retórico onde ações violentas podem ser justificadas como passos necessários para “acordar” o público para  a presença do inimigo.

O relatório destaca ainda a inutilidade de governos tentarem combater teorias conspiratórias — já que qualquer ação governamental será interpretada como um ato da própria conspiração.

É uma típica situação de “par eu ganho, ímpar você perde”: se o governo ignora as denúncias de que há uma conspiração, ou se as desmente, tanto faz: ambas as posições são sinais de que o establishment foi dominado pelos conspiradores.

O Demos sugere que a única coisa que as autoridades podem fazer é agir com cada vez mais transparência, e que o combate ao conteúdo específico da teoria da conspiração deve ser empreendido por meio da sociedade civil e do estímulo ao pensamento racional e crítico, via sistema educacional.

E falando em pensamento crítico, educação e sociedade civil, uma recente pesquisa Gallup mostra que a crença em bruxaria está disseminada na África subsaariana. A média de crentes em bruxos e feiticeiros, sortilégios e maldições na região é de 55%, indo de 15% em Uganda a 95% na Costa do Marfim.

Não se trata, como alguém poderia imaginar, de uma inocente peculiaridade cultural.

Como o filósofo e matemático William Clifford já havia destacado em seu polêmico ensaio de 1877, A Ética da Crença,  seres humanos baseiam as decisões que tomam nas crenças que sustentam.

No caso da crença africana em bruxaria, o resultado tem sido ondas de assassinatos, linchamentos e mutilações, tendo como vítimas supostos bruxos ou pessoas que, por contarem alguma característica especial — como os albinos — vêm membros e órgãos e seus corpos serem cobiçados para a realização de rituais, numa versão ainda mais grotesca das práticas de “medicina tradicional” que ajudaram a levar tigres e rinocerontes à beira da extinção.