Fadas, fotógrafos e Conan Doyle

Estadão

19 Novembro 2010 | 09h15

Morreu, no fim de outubro, o fotógrafo britânico Geoffrey Crawley, de 83 anos. Numa série de dez artigos publicada na revista British Journal of Photography, entre 1982 e 1983, ele ofereceu a mais completa explicação — e desmitificação — das famosas fotografias das “Fadas de Cottingley”.

Você talvez já tenha encontrado a história por aí: em 1917, duas meninas, as primas Frances Griffith e Elsie Wrigh, pegaram emprestada a câmera fotográfica do pai de Elsie e produziram as primeiras de uma sequência de fotos que mostram “fadas” e “gnomos” brincando no jardim.

Em 1920, as fotos chegaram ao conhecimento de Sir Arthur Conan Doyle — que décadas antes tornara-se famoso como o criador de Sherlock Holmes e que, após a I Guerra Mundial, passara a ser um ardente defensor do sobrenatural.

Sir Arthur escreveu um artigo e um livro a respeito, atestando a autenticidade das imagens, criando uma polêmica que duraria décadas.

A primeira das fotos: Frances Griffith com suas amiguinhas, em 1917

Agora, simples bom-senso sugere que as fadas acima não passam de recortes de cartolina pendurados nos arbustos, certo? E é exatamente o que são.  Na década de 70, o escritor britânico Fred Gettings reconheceu as imagens como cópias das ilustrações de um livro infantil publicado em  1915, Princess Mary’s Gift Book.

Nos anos 80, as primas, já senhoras idosas (Elsie faleceu em 1988; Frances, em 1986), confessaram: Elsie havia copiado as ilustrações do livro em cartolina. Os bonecos recortados foram fixados no cenário por meio de alfinetes.

Sir Arthur, no entanto, não só havia aceitado as imagens como verdadeiras, como ainda passara a fazer deduções a respeito: como na primeira foto uma das fadas aparece tocando flauta, o escritor pondera: “Isso não sugere toda uma gama completa de instrumentos e utensílios?” E também: “Essas pessoas [as fadas] estão destinadas a se tornar tão sólidas e reais quanto os esquimós”.

Crowley, em sua investigação, obteve as câmeras originais usadas pelas meninas, testou-as e tornou-se amigo de Elsie, que confirmou a fraude. Os testes realizados por ele mostraram que a versão das imagens que ficara famosa era formada por cópias manipuladas em laboratório para ganhar mais nitidez.

Elsie e o gnomo, segunda foto feita pelas primas em 1917

Crowley sempre manteve uma relação de respeito com as primas. Escrevendo sobre Elsie em 2000, ele disse que “ela nos deu um mito que nunca machucou ninguém”. Não sei se concordo: a reputação de Conan Doyle, por exemplo, não saiu exatamente ilesa.

A questão de por que o escritor abraçou com tamanho fervor a autenticidade das fotos é especialmente intrigante.

James Randi, em sua análise do caso, atribui a credulidade de Sir Arthur a uma mistura de preconceito e ingenuidade: o famoso autor teria uma visão de mundo na qual era mais plausível fadas existirem e posarem para fotos do que duas crianças bem educadas, de classe alta — e ainda por cima do sexo feminino! — mentirem descaradamente.

O biógrafo Andrew Lycett oferece uma interpretação alternativa: Charles Altamont Doyle, pai do escritor, era um ilustrador, e também um alcoólatra, que passou boa parte da vida internado em asilos para lunáticos. Em seus delírios, ele  via criaturas fantásticas, que desenhava.

“Se pudesse provar a verdade [das fadas], ele avançaria muito na reabilitação da memória do pai e mostraria que, longe de ser um louco, Charles Doyle tinha evoluído uma sensibilidade para se comunicar com seres espirituais elevados”, escreve Lycett.