Do bolo de Madre Teresa à torrada de Jesus

Estadão

14 Setembro 2010 | 06h54

Um pouco de nostalgia: comecei a escrever crônicas de/para/sobre a internet (não havia blogs ainda, então tecnicamente eu não estava “blogando”) em outubro de 1996. Nessa época jurássica — entre 1996 e 1998 –, os temas mais “quentes” na intersecção entre ciência e internet eram o lançamento da sonda Cassini para Saturno, do robô Sojourner para Marte, o duelo entre o computador Deep Blue e o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov e o pãozinho de canela com a cara de Madre Teresa de Calcutá.

nunbun_int

(Pausa para o momento “WTF”)

Isso provavelmente soa ridículo, mas o fato é que esse pãozinho não só conquistou fama mundial, como fez com que o website de uma obscura cafeteria de Nashville, a Bongo Java — onde o bolinho foi assado — obtivesse mais de 1 milhão de hits em apenas dez dias.

Isso era janeiro de 1997, gente. A internet havia fechado 1996 com 36 milhões de usuários no mundo; hoje em dia, tem por volta de 2 bilhões. Proporcionalmente, o “Nun Bun“, como era chamado, foi mais popular no meio virtual — ainda que por um curto intervalo de tempo — do que Lady Gaga ou Justin Bieber são hoje.

O pãozinho de canela representa uma instância de um fenômeno psicológico bastante comum, chamado pareidolia. É, basicamente, a tendência do cérebro humano de “preencher lacunas” na percepção, fazendo com que estímulo sensorial vago pareça claro e distinto. Trata-se da ilusão de ver sinal onde só há ruído.

Existe uma grande afinidade entre a pareidolia e a imaginação religiosa, provavelmente porque as imagens inculcadas pela fé costumam estar entre as mais fortes na mente, e por isso são as mais facilmente associadas a padrões sugestivos. Outros casos clássicos são o da Face de Marte (Jesus, para alguns) e o do infame sanduíche de queijo da Virgem Maria, vendido por uma bolada no eBay.

Há até um verbete na Wikipedia sobre percepção de imagens religiosas em fenômenos naturais.

O que me trouxe a história do pãozinho de Madre Teresa de volta foi a notícia de que um empresário americano está vendendo torradeiras criadas para imprimir a imagem de Jesus no pão de forma.

jesus_toast

Não se trata de uma empreitada devocional. A mesma empresa vende torradeiras que imprimem folhas de maconha na torrada, por exemplo.

Enfim, da pareidolia do Nun Bun à impressão deliberada das Jesus Toasters, o fenômeno das imagens religiosas que parecem surgir em pedaços de comida e ganham fama na internet parece ter percorrido, na última década e meia, o mesmo percurso que todo o resto do mundo online — indo de acidente curioso a negócio deliberado.

Saudade dos acidentes.