O pobre placebo incompreendido

Estadão

16 Novembro 2010 | 08h06

O título desta postagem é uma tradução do de um artigo recente do neurologista americano Steven Novella, da Universidade Yale, que mantém o blog NeuroLogica e é um dos editores do blog Science-Based Medicine. Infelizmente, o artigo a que me refiro ainda não está online, tendo sido publicado na edição mais recente da revista em papel Skeptical Inquirer.

Por uma  curiosa coincidência, cheguei ao texto de Novella na revista mais ou menos ao mesmo tempo em que a discussão na postagem anterior, sobre as tais pulserinhas do equilíbrio, entrava — talvez inevitavelmente, dado o tema — na questão do “efeito placebo”.

Novella apresenta uma definição operacional de efeito placebo. Definições operacionais estão na ciência pelo menos desde que Albert Einstein definiu tempo como “aquilo que medimos com um relógio” e espaço como “aquilo que medimos com uma régua”. É uma forma de esvaziar um conceito de suas pretensões, digamos, metafísicas, reduzindo-o a uma medida quantitativa que pode ser comparada objetivamente a outras.

Definido operacionalmente, o “efeito placebo” é “o efeito de tratamento medido no ramo placebo de um teste clínico, que inclui os sujeitos que receberam tratamento falso ou inerte”. Num estudo bem planejado, deve se encaixar nessa categoria “tudo que não for uma reação fisiológica ao tratamento biologicamente ativo”.

Definido dessa forma, então, “efeito placebo” não é o poder da sugestão, do pensamento positivo, etc., mas a soma de todos os efeitos não causados pelo tratamento em si. Novella faz questão de destacar que muitos desses efeitos não são nada mais que ilusões ou erros.

Entre as causas de uma ilusão de melhora está a chamada regressão para a média: “Para qualquer sintoma variável, períodos de tempo em que os sintomas estão muito ruins provavelmente, por puro acaso, serão seguidos por um retorno a sintomas médios”, escreve ele.

Entre as causas de erro estão as expectativas tanto do paciente quanto do responsável pelo teste — ambos têm um forte investimento emocional na crença de que há valor no tratamento sendo testado, e podem, inconscientemente, acabar dando uma forcinha espúria aos fatos, enviesando seus relatos.

Novella menciona ainda o “efeito observador” — o simples fato de uma pessoa saber que sua saúde está sendo monitorada por médicos e cientistas tende a fazê-la ser mais cuidadosa e a tomar decisões mais saudáveis de estilo de vida — e o “efeito torcida”: as pessoas tendem a se esforçar mais e a ser mais otimistas quando recebem encorajamento.

E por fim vem o que se chama, em linguagem coloquial, de “efeito placebo”: o efeito fisiológico do ritual do tratamento, que é causado pelo apoio emocional e pelo relaxamento do paciente que acredita que está sendo tratado.

Novella, no entanto, afirma que essa fração do resultado é muito pequena. “O efeito placebo pode consistir, em sua maior parte ou inteiramente, de ilusões e erros”, escreve.

Ele cita uma revisão de “efeitos placebo” constatados em vários testes clínicos feita por dois pesquisadores da Dinamarca, chamada Placebo interventions for all clinical conditions, e que diz, em sua conclusão:

“Não descobrimos que intervenções de placebo tenham efeitos clínios importantes em geral. No entanto, em certas condições intervenções com placebo podem influenciar os resultados informados pelos pacientes, especialmente em dor e náusea, embora seja difícil distinguir os efeitos do placebo informados pelo paciente de relatos enviesados.”