O que o detector de mentiras detecta?

Estadão

11 Novembro 2010 | 09h07

A notícia quase me fez cair da cadeira quando li: o governo britânico torrou mais de 2 milhões de libras (algo na vizinhança de R$ 6 milhões) para testar uma tecnologia de detecção de mentiras que seria aplicada num esforço de evitar fraudes previdenciárias.

A ideia era analisar a voz das pessoas ligando para pedir benefícios e determinar, pelo estresse encontrado na fala, se a reivindicação era legítima ou não.

Segundo o neurologista e psiquiatra americano Terence Hines, que escreveu um longo capítulo sobre detectores de mentira em seu livro de 2003 Pseudoscience and the Paranormal, essa técnica, chamada análise de estresse vocal, está intimamente ligada ao polígrafo, que é o detector que aparece nos filmes policiais americanos.

A ligação é fácil de perceber: enquanto o polígrafo faz medidas de estresse fisiológico, analisando pressão sanguínea, ritmo cardíaco e a condutividade elétrica da pele (um indicador de transpiração), a análise de estresse vocal tenta medir… o estresse vocal.

A premissa subjacente, enfim, é a mesma: mentir é mais estressante que dizer a verdade;  logo, detectar estresse equivale a detectar mentira. É uma bela premissa.

O único problema é que é estupendamente falsa. Um mentiroso contumaz pode mentir e se manter relaxado, e uma pessoa inocente pode ficar nervosa ao se ver alvo de suspeita e ficar estressadíssima, mesmo enquanto conta a verdade.

Como Hines cita em seu livro, dois agentes americanos — um da CIA, Aldrich Ames, e outro do FBI, Robert Hanssen — que durante anos venderam segredos para a Rússia passaram facilmente por testes de polígrafo em suas carreiras. Ames teria sido orientado pela KGB a “apenas relaxar” durante o exame.

Em 1986, a rede de TV americana CBS ligou para várias empresas que realizavam testes de polígrafo para pedir ajuda na investigação de um roubo de equipamento.

Funcionários “suspeitos” foram indicados pela chefia e, sem dúvida, os testes de polígrafo revelaram que eram eles os culpados. Mas não havia ocorrido roubo algum: tudo tinha sido uma armação do programa jornalístico 60 Minutes, que produzia um especial sobre detectores de mentira.

Em 2003, a Academia Nacional de Ciências dos EUA publicou um relatório de mais de 400 páginas, The Polygraph and Lie Detection, cuja conclusão afirma que “as respostas fisiológicas medidas pelo polígrafo não são exclusivas da mentira”; “a base teórica do polígrafo é muito fraca”; “as estimativas de precisão  do polígrafo superestimam essa precisão na prática”.

O relatório concede que, em algumas situações específicas, o polígrafo parece capaz de separar verdade da mentira em níveis acima dos esperados por puro acaso, “mas muito abaixo da perfeição”.

O psicólogo David Likken, falecido em 2006, já havia escrito uma crítica demolidora do polígrafo em 1981.

Mas Likken sugeriu um uso alternativo para o sistema, o Teste de Consciência Culpada, no qual o suspeito, ligado ao detector, recebe uma série de questões, uma das quais contém informação que apenas o culpado poderia saber — digamos, a posição exata do corpo da vítima.

A ideia é a de que uma pessoa inocente que se sentisse estressada durante o teste ficaria uniformemente nervosa ao longo do interrogatório, enquanto que o culpado ficaria mais nervoso ao reconhecer um dado concreto do crime. Esse teste é considerado um pouco melhor que os outros usos do polígrafo, mas ainda assim está longe de ser perfeito.

E o sistema avaliado pelos britânicos? Foi abandonado após os testes terem sido feitos e os 2 milhões de libras, gastos.