Passeando pela árvore da vida

Estadão

22 Setembro 2010 | 09h44

Praticamente todo dia, quando saio de casa para o trabalho, encontro na portaria do prédio um gato malhado preto e branco, que me acostumei a afagar enquanto espero minha carona para a rodoviária. Como todas as formas de vida da Terra, eu e o gato somos parentes — mas, ao contrário, por exemplo, de meus primos na família Orsi, com quem compartilho um casal de avós que viveu uma vida agitada  no século 20, o último ancestral comum entre esse gato e minha pessoa existiu há 97 milhões de anos.

Ao atravessar a rua para pegar a carona, não é incomum encontrar pombos ciscando na calçada. O parentesco entre eu e o pombo é bem mais distante que o que me separa do gato — nosso ancestral comum data de 324 milhões de anos trás, mais ou menos a mesma época em que viveu meu ancestral comum com os jacarés ( um tipo de animal que nunca vejo pessoalmente!).

Na rodoviária, volta e meia observo formigas na plataforma (principalmente junto à lixeira, onde as crianças jogam restos e embalagens de doces) enquanto espero o ônibus encostar. Nesse caso, o parente comum andava por aí há 910 milhões de anos.

Às vezes, o ônibus que pego tem ar condicionado. Confesso que a possibilidade de o sistema não estar bem limpo e de haver fungos– esses, parentes realmente distantes, com nosso ancestral comum há 1,3 bilhão de anos — circulando me preocupa um pouco.

Chegando a São Paulo, se tenho tempo desço do ônibus junto à Ponte do Limão e caminho até o jornal. Para subir a ponte tenho de passar por uma ladeira coberta de grama. Pisar num parente é falta de educação, mas minha família e a da grama divergiram muito tempo atrás, há 1,6 bilhão de anos.

Cruzando a ponte é inevitável que o aroma do Rio Tietê se faça notar. As bactérias responsáveis pela pungente exalação se separaram de minha linhagem em algum momento entre 4,2 bilhões e 2 bilhões de anos a trás.

Todos os números da historinha acima vieram do website Time Tree, que permite comparar diferentes espécies e calcular a época em que viveu o último ancestral comum, com base dos dados científicos publicados sobre a genética dos grupos a que as espécies pertencem. A base para o cálculo é o chamado “relógio molecular” — a ideia de que determinadas sequências de DNA acumulam mutações a uma taxa constante ao longo do tempo, e que portanto é possível medir tempos de divergência contando as mudanças.

Além do website, a Time Tree tem ainda uma aplicação gratuita para smartphones, um livro (que pode ser lido online ou comprado) e um belíssimo pôster que representa, graficamente, a árvore da vida.