Perlman e McCartney

Estadão

22 Novembro 2010 | 13h02

Com todo mundo (compreensivelmente) falando sobre o show de Paul McCartney em São Paulo, fico quase acanhado em dizer que  o único efeito que a apresentação do ex-Beatle teve sobre a minha noite de domingo foi me fazer esperar quase meia-hora para conseguir um táxi do lado de fora da Sala São Paulo, onde eu havia assistido a um concerto de violino e piano estrelado por Itzhak Perlman.

Perlman é um dos maiores violinistas do século passado; segue sendo um dos maiores deste. Sem entrar em discussões estéreis sobre o erudito e o popular (como já dizia o Eclesiastes, há um tempo para tudo — incluindo violino e guitarra ), não consigo resistir a uma comparação, não entre as músicas, mas entre os eventos.

A presença de Paul McCartney simplesmente dominou São Paulo. Na banca de camisetas da feira de domingo de um shopping da Avenida Paulista, as pilhas eram P, M, G e Beatles.  Perlman, que eu saiba, deu uma entrevista ao Estado de sábado, e só.

E a escala dos espetáculos: a Sala São Paulo não é, obviamente, o Morumbi. O que tem a vantagem de filas muito menores, mas não só. Com todo o público sentado a poucas fileiras de onde Perlman apresentava seu virtuosismo, não era difícil ter uma consciência muito direta, uma experiência palpável, da presença de um gênio entre nós.

No caso de McCartney, essa presença passa por uma série de mediações — amplificadores, telão — que tanto diluem quanto  reforçam a experiência.

Mas talvez a maior diferença esteja na divisão muito clara, no caso do concerto, entre os papéis do artista e do público na construção do espetáculo.

Perlman, durante copncerto na Casa Branca

Desfrutar de uma sonata de Beethoven para violino e piano é algo que se faz imóvel, sentado, talvez até de olhos fechados — uma experiência radicalmente individual. Se não houvesse mais ninguém na sala, praticamente não faria diferença.

Confesso que as longas sessões de aplauso quase chegaram a me irritar: não porque Perlman não merecesse cada bater de palmas, mas porque eu estava ali para ouvi-lo tocar, e cada minuto de aplauso era um minuto a menos de música!

No show de McCartney o público é, obviamente, parte do espetáculo. Está contabilizado no design do evento. Espera-se que as pessoas aplaudam e cantem junto.

De novo, nenhum juízo de valor aqui: há a hora de ouvir em silêncio reverente, e há a hora de cantar até perder a voz.

Você talvez se pergunte o que esta crônica mal ajambrada está fazendo num blog sobre ciência. Confesso que o objetivo original era escrever algo sobre os efeitos da música no cérebro, mas desisti (por enquanto — devo voltar ao tema um dia). Fica apenas o registro de que, na noite de Paul McCartney, Itzhak Perlman também esteve aqui — e se apresenta ainda nesta segunda e terça.

Amanhã, voltamos à programação normal.