Por que as pessoas votam?

Estadão

29 Setembro 2010 | 08h39

Um conhecido paradoxo da teoria da decisão diz que sair de casa para votar é um ato irracional. Por um motivo simples: numa grande eleição, com milhões de eleitores, a probabilidade de o voto de um único cidadão — digamos, o meu ou o seu — fazer diferença é desprezível.

Pensando no caso concreto da eleição presidencial brasileira: há 135 milhões de eleitores aptos a voltar para presidente. A chance que o meu voto tem de influir no resultado final, portanto, é de 1/135 milhões. Isso é menos da metade da chance que eu tenho de ganhar sozinho na Mega Sena!

O paradoxo foi expressado por Anthony Downs, em 1957, que resumiu o caso com a seguinte equação:

R = (B*p)-C

Onde “R” pode ser descrito como a motivação racional para votar. Por sua vez, “B” representa o quanto o resultado do pleito é importante para você pessoalmente — por exemplo, se você é um funcionário em cargo comissionado, “B” pode expressar o seu medo de perder o emprego se a oposição ganhar.

Já “p” é a probabilidade de seu voto fazer diferença (menos que a chance de ganhar na Mega Sena!) e “C” é o custo de votar — o trabalho de sair de casa, pegar fila, perder o domingo… Se você for um eleitor consciente, inclua em “C” o preço dos jornais e revistas, e o tempo gasto diante da TV, necessários para que seu voto seja fruto de uma decisão informada.

Aí surge o paradoxo de Downs: o termo (B*p) é em geral tão minúsculo que qualquer valor positivo para “C” faz com que “R” — a racionalidade de votar — fique abaixo de zero.

Uma solução seria fazer “C” ser negativo, o que significaria que o eleitor estaria sendo premiado para votar — talvez com transporte grátis e um churrasquinho –, mas  isso cheira a compra de votos, o que é ilegal.

Falando em ilegalidade, o leitor perspicaz pode ter notado que omiti, até agora, o fato saliente de que o voto, no Brasil, é obrigatório. Bom, uns dez anos depois da publicação do trabalho de Downs, William Riker e Peter Odershook propuseram uma  versão revisada da equação, com a seguinte forma:

R = (B*p)-C+D

Onde “D” representa o senso de dever do eleitor. Basicamente, o quanto ele se sente comprometido com a democracia, o processo eleitoral, a legitimidade da eleição, etc, etc.

O voto obrigatório tem o efeito de garantir — ou, ao menos, de sugerir fortemente — que “D” nunca será zero: mesmo quem, por motivos filosóficos ou ideológicos, despreza o processo eleitoral, agora é obrigado a levar em conta as inconveniências de não votar.

Isso talvez possa ser visto como um argumento a favor do voto obrigatório, mas tenho minhas dúvidas: pode-se argumentar que o fato de “D” ser, por decreto legal, não-zero, induz as pessoas que não se sentem impelidas a votar por nenhum outro motivo além da obrigatoriedade a fazer de tudo para minimizar “C”, seja evitando os custos de informar-se sobre o pleito, seja vendendo o voto.

Essa não é, obviamente, toda a história: nos anos 80, George Quattrone e Amos Tversky notaram que o valor de “p” cresce à medida que a eleição se polariza — se há uma divisão meio a meio do eleitorado, de repente cada voto conta. O que talvez seja o caso da eleição presidencial brasileira…