Violência humana e o ‘macaco assassino’

Estadão

21 Setembro 2010 | 09h23

No distante início de minha juventude, nos anos 70, era comum ouvir — ao menos, parecia comum –que o homem é o único animal que mata por qualquer outro motivo além de busca por alimento; que é a única criatura que faz guerra contra os semelhantes; o único ser sobre a face da Terra que tira prazer da morte e da destruição.

Aquela era uma época em que o pêndulo da autoestima humana fazia mais um de seus movimentos periódicos, que o levam, a cada poucas décadas, do extremo em que o homem se considera a coroa da criação e o ápice da evolução para o oposto, onde aparecemos como monstros e aberrações em meio a uma natureza naturalmente (com o perdão do pleonasmo) harmônica e amorosa.

Os dois extremos aparecem ao mesmo tempo no debate atual em torno de questões ambientais, com os românticos da doce natureza ferida de um lado e os românticos da poderosa humanidade invencível do outro — e a opinião pública tentando descobrir quem é menos maluco, com os moderados e a ciência insistindo, aparentemente sem muito sucesso, que a verdade tem mais nuances do que uma simples oposição bipolar — mas não era disso que queria tratar, e sim de um outro momento de crise da autoiamgem humana: a hipótese, hoje desacreditada, do macaco assassino.

Reencontrei o conceito ao folhear, avidamente, o recém-chegado volume Darwin’s Universe, mais recente edição da Encyclopedia of Evolution, brilhante livro de curtos ensaios sobre evolução escrito por Richard Milner. Ali, entre Benjamin Kidd (1858-1916, proponente do valor adaptativo da fé religiosa) e King Kong, encontrei o verbete Killer Ape.

A hipótese, proposta nos anos 50 e que teve grande voga popular na década seguinte, sugeria que o ser humano havia evoluído a partir de uma variedade especialmente violenta de hominídeo, e que a fabricação de armas, a caça e o homicídio eram uma característica definidora da espécie, separando-nos de nossos primos primatas, gentis, cordatos e pacíficos. Não é difícil imaginar que a ideia de que “o homem é o único animal que faz guerra” que me chegou nos anos 70 fosse uma versão diluída da onda do macaco assassino.

De lá para cá, explica Milner, a imensa maioria dos fósseis hominídeos encontrados não mostrou marcas de violência, o que desmente a hipótese de que assassinato era um tipo comum de interação social na gênese humana. Por outro lado, estudos sobre o mundo animal fizeram muito para demolir a visão romântica da natureza — hoje sabemos que chimpanzés “gentis, cordatos e pacíficos” são capazes de cometer estupro, tortura e ir à guerra; e animais realmente sanguinários, como leões, têm uma taxa de violência contra membros da própria espécie muito maior que a humana: diz Milner que, se os homens fossem tão violentos uns contra os outros como são leões, haveria 24 homicídios por ano por quarteirão nas grandes cidades.

Já a taxa de homicídio na cidade de São Paulo, segundo o IBGE, é de cerca de 25 mortes por 100.000 habitantes — alta, mas ainda não na faixa de dezenas por quarteirão. Usando uma símile sugerida por Milner, isso significa que um cientista em campo teria de observar 4.000 “animais humanos” paulistanos por um ano inteiro para ter a oportunidade de testemunhar uma só morte violenta.