Mecanismo de rejuvenescimento já está na natureza

Pela primeira vez, cientistas constataram que a linha germinal (a de gametas) se oxida, eliminando a ideia de que esta linha não envelhece.

taniager

17 Novembro 2010 | 14h48

Visualização da regeneração de proteínas danificadas (marcador de envelhecimento, que se acumula com a idade) durante a reprodução. O sinal diminui abruptamente (seta branca) em uma fase específica da maturação dos ovócitos destinados a tornarem-se embriões para dar à luz a indivíduos rejuvenescidos. Crédito: Hugo Aguilaniu.

Visualização da regeneração de proteínas danificadas (marcador de envelhecimento, que se acumula com a idade) durante a reprodução. O sinal diminui abruptamente (seta branca) em uma fase específica da maturação dos ovócitos destinados a tornarem-se embriões para dar à luz a indivíduos rejuvenescidos. Crédito: Hugo Aguilaniu.

Tornar-se mais jovem pode parecer algo da ciência do futuro, mas uma equipe de cientistas descobriu que é possível encontrar mecanismos rejuvenescedores em organismos na natureza. Os cientistas do Laboratório de biologia molecular da célula (CNRS/ENS Lyon/Universidade Claude Bernard de Lyon) acabam de visualizar o rejuvenescimento de ovócitos do verme Caenorhabditis elegans antes da fertilização. O artigo foi publicado na revista Aging Cell recentemente. A descoberta abre caminhos para a compreensão do envelhecimento e doenças associadas a ele.

Tradicionalmente, os estudos sobre envelhecimento comparam os indivíduos idosos com os mais jovens, ou indivíduos normais com indivíduos com longevidade comprovada. Um estudo conduzido pela equipe de Hugo Aguilaniu abordou a questão sob um ângulo conceitualmente novo: existe na natureza exemplos de rejuvenescimento? Sim, no momento da reprodução! Os cientistas tentavam explicar qual a razão de crianças não herdarem o mesmo risco de desenvolver doenças do envelhecimento, como o câncer, de seus pais mais velhos.

Os pesquisadores investigaram um organismo que é modelo clássico para estudos sobre envelhecimento, o C. Elegans: este pequeno verme nematoide é transparente, hermafrodita, capaz de autofecundação e de reprodução rápida. É possível observar todas as etapas de fecundação neste organismo.

Constituinte principal das nossas células, as proteínas são danificadas ao longo do tempo por oxidação (a carbonilação é um tipo específico de oxidação irreversível) que pode ser usado como um marcador do envelhecimento. No estudo, os cientistas desenvolveram uma técnica para “ver”, em ovócitos, a taxa de oxidação de proteínas nas células. Pela primeira vez, eles constataram que a linha germinal (a de gametas) se oxida, eliminando a ideia de que esta linha não envelhece. Mais importante, eles mostraram que, numa fase de maturação dos ovócitos, a taxa de oxidação diminuiu de repente. Como? Os pesquisadores puseram em evidência o papel do proteassoma (que degrada as proteínas) no processo. Quando ele é inibido, é observado pouco, ou nenhum, “rejuvenescimento”, o que resulta na esterilidade dos indivíduos. Durante o processo de reprodução, existe, portanto, uma “limpeza” das proteínas de nossas células, a fim de rejuvenescê-las para formar bebês jovens.

O estudo abre as portas para muitas questões biológicas fascinantes: o que deve ser herdado dos pais? E, pelo contrário, o que não deve ser herdado? Como podemos reduzir a incidência de doenças do envelhecimento, como o câncer, a neurodegeneração e outras, cada vez que nos reproduzimos?