Coluna de Psicologia – Tendências para pré-modelar conteúdos

Psicóloga Regiane Canoso explica os arquétipos, como eles se manifestam e podem ser percebidos pela mente consciente.

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08 Setembro 2010 | 11h03

Olá queridos leitores, como havia anunciado na coluna passada, hoje vou falar sobre arquétipos. Vocês podem estar pensando: mas por que arquétipos…? Ou, até mesmo, o questionar o que é isso. Penso ser interessante e produtivo para que possam entender algumas manifestações do nosso psiquismo que ocorrem no nosso dia a dia. Qualquer relação mais direta com o assunto, por favor procurem um profissional para ajudá-los a entender! Vamos ao assunto:

Existem fenômenos que governam nosso modo de sentir e de pensar, que Jung lhes deu o nome de ARQUÉTIPOS, sendo estes tendências do psiquismo para pré-modelar seus conteúdos em nós sob a forma de imagens ou ideias. Ele descreve o arquétipo como um elemento vazio e formal, uma possibilidade dada a priori da forma de sua representação. Sendo assim,

        “Deve-se ressaltar que os arquétipos são determinados apenas quanto à forma e não quanto ao conteúdo” (JUNG, 2007).

Quando o arquétipo manifesta-se no aqui e agora do espaço e do tempo, ele de algum modo pode ser percebido pela mente consciente. Então falamos de um símbolo. O arquétipo é, contudo um símbolo em potencial, e toda vez que uma constelação psíquica geral, uma condição adequada de consciência, estiver presente, seu “núcleo dinâmico” estará pronto para realizar-se e manifestar-se como um símbolo.

A psique é, de fato, a única experiência imediata que podemos ter e o sine qua non da realidade subjetiva do mundo. Os símbolos que ela cria são sempre baseados no arquétipo inconsciente, mas suas formas manifestas são moldadas pelas ideias adquiridas pela mente consciente. Os arquétipos são os elementos estruturais e numinosos da psique; eles possuem certa autonomia e uma energia específica que os capacita para atrair e retirar da mente consciente aqueles conteúdos que melhor se adaptam a eles próprios. O inconsciente fornece, por assim dizer, a forma arquetípica, que é em si mesma vazia e, portanto, irrepresentável. Mas, do lado consciente, ela é imediatamente preenchida pelo material de representação que lhe é próximo ou semelhante, e assim torna-se perceptível.

Isso porque, assim que o núcleo humano coletivo do arquétipo, que representa o material bruto fornecido pelo inconsciente coletivo, entra em contato com a mente consciente seu caráter modelador, o arquétipo assume um “corpo”, “matéria”, “forma plástica”, etc.; ele se torna representável, e só então se torna uma imagem concreta – uma imagem arquetípica, um símbolo.

Os arquétipos sempre aparecem nos indivíduos como manifestações involuntárias de processos inconscientes, onde a existência e o sentido dos mesmos só podem ser inferidos no mito. Os arquétipos sempre representam um conteúdo inconsciente, assumindo combinações que variam de acordo com a consciência individual na qual se apresenta. Quer o indivíduo compreenda ou não o mundo dos arquétipos, deverá permanecer consciente dos mesmos, pois nele o homem ainda é natureza e está conectado com suas raízes. 

Os arquétipos sempre foram e são forças da vida anímica, que querem ser levados a sério e cuidam de valorizar-se da forma mais estranha. Sempre foram portadores de proteção e salvação, e sua violação tem como consequência os perigos da alma, muito conhecidos na psicologia dos primitivos. Também são causas infalíveis das perturbações neuróticas ou até psicóticas, ao se comportarem exatamente da mesma forma que os órgãos corporais ou sistemas de funções orgânicas negligenciadas e maltratadas. Um conteúdo arquetípico sempre se expressa em primeiro lugar metaforicamente – na realidade nunca nos libertaremos legitimamente do afundamento arquetípico, “a não se que estejamos dispostos a pagar o preço de uma neurose, da mesma forma que não nos livraremos de nosso corpo e de seus órgãos sem cometer suicídio”. (JUNG, 2007).

Já que não se pode negar um arquétipo ou torná-lo inofensivo de algum modo, cada fase conquistada na diferenciação cultural da consciência confronta-se com a tarefa de encontrar uma nova interpretação correspondente a esta fase, a fim de conectar a vida do passado, ainda existente entre nós com a vida do presente. Caso esta conexão não ocorra surge uma consciência desenraizada, que não se orienta pelo passado, tornando-se suscetível a toda epidemia psíquica.

Os arquétipos, como tudo aquilo que é coletivo, são impessoais e têm necessidade de serem personalizados, isto é, experimentados por meio de uma relação. A criança está predestinada a encontrar um pai e uma mãe ao seu redor, ela traz em si estes arquétipos.

”Os arquétipos constituem um bem inalienável de toda psique, sendo o tesouro no campo dos pensamentos obscuros”.

Os arquétipos seriam como um “recipiente que nunca podemos esvaziar, nem encher. Ele existe em si apenas potencialmente e quando toma forma em alguma matéria, já não é mais o que era antes”. São como elementos inabaláveis do inconsciente, sempre mudam a forma e constituem unidades que podem ser apreendidas intuitivamente. Os arquétipos não se esgotam, não são ultrapassados, nem se tornam imprescindíveis. Sendo assim podemos dizer que:

             “Existem tantos arquétipos quantas as situações típicas na vida”

Para terminar esse assunto vou deixar algumas explicações, concordando com JUNG no que diz respeito aos arquétipos. Então faço das dele as minhas palavras também.

Não se pode ter a ilusão de que um arquétipo afinal possa ser explicado e com isso encerrar a questão. Até mesmo a melhor tentativa de explicação não passa de uma tradução mais ou menos bem-sucedida para outra linguagem metafórica. Na melhor das hipóteses sonha-se a continuidade ao mito, dando-lhe uma forma moderna. O que quer que uma explicação ou interpretação faça com o mito, isso equivalerá ao que fazemos com nossa alma, e haverá conseqüências correspondentes para o nosso próprio bem-estar. O arquétipo – e nunca deveríamos esquecer-nos disso é um órgão anímico presente em cada um. Uma explicação inadequada significa uma atitude equivalente em relação a este órgão, através do qual este último pode ser lesado. O último que sofre, porém é o mau interprete. A “explicação” deve, portanto, levar conta que o sentido funcional do arquétipo precisa ser mantido, isto é, uma conexão suficiente e adequada quanto ao sentido da consciência com o arquétipo deve ser assegurada.  (JUNG, 2007).

Queridos leitores, no próximo texto vou trazer de novo a questão dos arquétipos, porém, irei focar o assunto no arquétipo materno e no arquétipo paterno, ok? Até lá!

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Regiane Canoso é psicóloga e estreia sua coluna quinzenal no Ciência Diária a partir de hoje.Regiane L. C. Lopes é psicóloga, especializada em psicologia junguiana e psicologia hospitalar. Assina esta coluna quinzenalmente. Caso tenha sugestões, críticas ou perguntas, mande um e-mail para rcanoso@cienciadiaria.com.br.