Estudo mostra que neandertais tinham tecnologia própria e sofisticada

Pesquisa baseou-se em sete anos de estudo em sítios arqueológicos de Neandertais na Itália e focou a cultura Uluziana desaparecida.

taniager

22 Setembro 2010 | 12h56

Neandertais são os hominídeos mais próximos do ser humano moderno. Segundo a antropóloga Julien Riel-Salvatore,

Neandertais são os hominídeos mais próximos do ser humano moderno. Segundo a antropóloga Julien Riel-Salvatore, "quando nós mostramos que os Neandertais poderiam ter inovado por si próprios, isto joga uma nova luz sobre eles. Isto os humaniza.”. Crédito: cortesia do American Museum of Natural History.

Por décadas, cientistas acreditaram que os Neandertais desenvolveram ornamentos e ferramentas “modernas” apenas pelo contato com o Homo sapiens. Mas, uma nova pesquisa realizada na Universidade do Colorado Denver mostra agora que estes robustos antepassados eram capazes de adaptar, inovar e evoluir sua própria tecnologia.

As conclusões da antropóloga Julien Riel-Salvatore, professora na Universidade de Denver, desafiam meio século de sabedoria convencional, a qual supõe que os Neandertais de ossatura pesada eram “homens das cavernas” completamente primitivos e sem nenhuma habilidade, como aquelas pertencentes aos seres humanos “modernos” – os mais avançados seres humanos que chegavam na Europa da África. Segundo ela, eles eram “bem mais capazes do que se tem imaginado”.

Sua pesquisa, a ser publicada no Journal of Archaeological Method and Theory em dezembro, baseou-se em sete anos de estudo em sítios arqueológicos de Neandertais em toda a Itália, com enfoque especial na cultura Uluziana desaparecida.

A cultura Aurinhacense, atribuída aos modernos Homo sapiens, apareceu no norte da Itália há 42 mil anos, enquanto a Itália central continuava a ser ocupada pelos Neandertais da cultura Musteriense de pelo menos 100 mil anos. Neste mesmo tempo, uma nova cultura suposta Neandertal surgiu ao sul. Eles eram os Uluzianos e eram muito diferentes. 

Riel-Salvatore identificou marcas de projéteis, ferramentas de ossos, ornamentos e possíveis evidências de pequenas peças de pesca e caça em sítios arqueológicos uluzianos em todo o Sul da Itália. Tais inovações não são tradicionalmente associadas aos Neandertais. Elas sugerem que os uluzianos evoluíram independentemente em decorrência de mudanças drásticas no clima. Mais importante ainda: eles surgiram em uma área geograficamente separada do homem moderno.

“A minha conclusão é que se o Uluziano é de uma cultura Neandertal, os contatos com seres humanos modernos não são necessários para explicar a origem desse novo comportamento. Isto contraria as noções dos últimos 50 anos de que os Neandertais tinham que ser aculturados pelos seres humanos para chegar a essa tecnologia”, disse ela.  “Quando nós mostramos que os Neandertais poderiam ter inovado por si próprios, isto joga uma nova luz sobre eles. Isto os humaniza.”

Milhares de anos atrás, o Sul da Itália sofreu uma mudança climática, tornando-se cada vez mais deserta e árida, disse Riel-Salvatore. Neandertais que ali viviam enfrentaram uma escolha difícil entre se adaptar ou desaparecer. A evidência sugere que começaram a usar dardos ou setas para caçar presas menores para compensar a tradicional caça de mamíferos maiores, cada vez mais escassos.

“O fato de que os Neandertais poderiam adaptar-se às novas condições e inovar mostra que eles são culturalmente semelhantes a nós”, disse ela.  “Biologicamente também são semelhantes. Acredito que eles eram uma subespécie do homem, mas não uma espécie diferente”.

Os Neandertais foram descobertos no Vale de Neander na Alemanha em 1856. Quem eles foram exatamente, como viveram e porque desapareceram permanece um mistério.

A pesquisa mostra que eles contribuíram com 1 a 4% do seu material genético para os povos da Ásia e da Europa. Riel-Salvatore rejeita a teoria de que eles foram exterminados por seres humanos modernos. Homo sapiens simplesmente poderiam ter existido em grupos maiores e tinham taxas de nascimento ligeiramente superiores, disse ela.

“É provável que os Neandertais tenham sido absorvidos pelo homem moderno”, disse ela.  “Minha pesquisa sugere que eles eram um tipo diferente de humanos, mas seres humanos. Nós somos mais irmãos que primos distantes”.