Formação geológica incomum explica terremoto mortal de 2004 na Indonésia

Em vez dos habituais sedimentos fracos e soltos encontrados neste tipo de falha, equipe encontrou sedimentos duros e compactados.

taniager

22 Junho 2011 | 20h51

 

Em uma zona de subducção típica, a falha se rompe principalmente ao longo da fronteira entre as duas placas tectônicas e se dissipa em sedimentos fracos (a) ou rompe ao longo de “falhas oblíquas

Em uma zona de subducção típica, a falha se rompe principalmente ao longo da fronteira entre as duas placas tectônicas e se dissipa em sedimentos fracos (a) ou rompe ao longo de “falhas oblíquas" (b); em qualquer caso, parando muito aquém da fossa. Na área do terremoto de Sumatra 2004, os sedimentos eram mais grossos e mais fortes, estendendo a ruptura para mais perto da fossa provocando um terremoto maior e, devido a águas mais profundas, um tsunami muito maior. Crédito: UT Austin.

Uma equipe internacional de geocientistas descobriu uma formação geológica incomum que ajuda a explicar como um terremoto submarino fora da Costa de Sumatra, em dezembro de 2004, gerou o tsunami mais mortífero da história já registrado. Os resultados do estudo aparecem em um artigo do autor principal Sean Gulick publicado na revista Nature Geoscience esta semana.

Em vez dos habituais sedimentos fracos e soltos encontrados normalmente acima do tipo de falha geológica que causou o terremoto, a equipe encontrou um planalto espesso de sedimentos duros e compactados. Uma vez que a falha se quebrou, a ruptura foi capaz de se propagar de dezenas de quilômetros para apenas alguns quilômetros abaixo da superfície do fundo do mar, muito mais do que sedimentos fracos teriam permitido. A distância adicional permitiu mover uma coluna maior de água acima do nível do mar, desencadeando ondas de tsunami muito maiores.

“Os resultados sugerem que devemos nos preocupar com os locais com grandes espessuras de sedimentos no fosso, especialmente aqueles que têm construído platôs marginais,” disse Gulick, pesquisador no Instituto de Geofísica de Austin da Universidade do Texas, EUA. “Estes locais podem promover mais rupturas em direção ao mar durante grandes terremotos, e um tsunami mais significativo”.

A equipe, formada por cientistas das universidades do Texas em Austin nos Estados Unidos e de Southampton no Reino Unido, da Agência para a Avaliação e Aplicação de Tecnologia na Indonésia e do Instituto Indonésio de Ciências, utilizou instrumentos sísmicos, que emitem ondas sonoras, para visualizar estruturas de subsolo.

No início da manhã de 26 de Dezembro de 2004 um poderoso terremoto submarino começou na costa ocidental de Sumatra, na Indonésia. O tsunami resultante causou devastação ao longo das costas do Oceano Índico com ondas de tsunami de até 30 metros de altura, inundando as comunidades costeiras. Com o pouquíssimo alerta do desastre iminente, mais de 230 mil pessoas morreram e milhões ficaram desabrigadas.

O terremoto ocorreu ao longo de uma falha onde a placa Indo-australiana está mergulhando por baixo da placa de Sunda para o leste. O fenômeno é conhecido como “zona de subducção” e, neste caso, o encontro de placas está situado na fossa de Sunda, cerca de 300 km a oeste de Sumatra. A placa Indo-australiana normalmente se move lentamente sob a placa de Sunda, mas quando a ruptura ocorreu, ela subiu violentamente.

A fossa de Sunda é cheia de sedimentos antigos, alguns dos quais transportados do Ganges, depositando-se em uma acumulação maciça de rochas sedimentares durante milhões de anos, conhecida como Nicobar Fan. Como a placa Indo-australiana foi subductada, estes sedimentos que recobriam a fossa foram soerguidos e erodidos compondo um prisma acrecionário situado em um plano inclinado longe da fossa, onde a profundidade do leito marinho diminuiu abruptamente antes do achatamento como um platô.

Os terremotos de subducção podem começar a dezenas de quilômetros abaixo da superfície da Terra. O deslocamento ou rejeito de falha, como os geólogos chamam, propaga-se para cima e geralmente se dissipa quando atinge rochas fracas superficiais. Se fosse uma zona sísmica comum, o sedimento na fossa Sunda deveria ter desacelerado sua jornada para cima e para o oeste no terremoto de 2004, gerando um tsunami em águas mais rasas no lado leste da fossa (em direção à costa).

Mas na verdade, o deslizamento de falha parece ter chegado perto da fossa, levantando grandes secções do leito marítimo em águas mais profundas e produzindo um tsunami muito maior.

Este último relatório estende o trabalho publicado no ano passado na revista Science, o qual havia encontrado um número de características incomuns na zona do terremoto de 2004 como, por exemplo, a topografia do fundo marinho, como os sedimentos foram deformados e os locais de pequenos sismos (tremores) após o terremoto principal. Os pesquisadores também haviam informado na época que a zona de falha seria uma zona de densidade muito inferior àquela ao redor dos sedimentos, talvez reduzindo o atrito e permitiindo um deslizamento maior.

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