Ossos dão pistas sobre distribuição de Homo sapiens na Europa

Datando 32 mil anos, os ossos são a evidência direta mais antiga da presença de nossa espécie Homo sapiens no Sudeste europeu.

taniager

28 Junho 2011 | 22h05

 
 

 

Osso temporal de homem moderno encontrado em Buran-Kaya III (com 32 mil ano) apresentando traços de cortes. Crédito: L. Crépin – S. Prat / MNHN – CNRS.

Osso temporal de homem moderno encontrado em Buran-Kaya III (com 32 mil ano) apresentando traços de cortes. Crédito: L. Crépin – S. Prat / MNHN – CNRS.

Restos humanos encontrados na Criméia, Ucrânia, foram datados de 32 mil anos por uma equipe europeia que envolve o Centro Nacional de Pesquisa Científica – CNRS – da França e o departamento de Pré-história do Museu Nacional de História Natural francês. É a mais antiga evidência direta da presença da nossa espécie Homo sapiens no Sudeste da Europa. Publicado no site PLoS ONE, este estudo fornece novos dados para traçar a colonização da Europa por seres humanos modernos pela primeira vez.

 

Descoberto em 1991 ao sul da montanha da Criméia (Ucrânia), o abrigo sob a rocha do Buran-Kaya III foi pesquisado em várias campanhas. Uma das camadas do sítio, correspondente ao Paleolítico Superior, entregou 162 fragmentos de ossos humanos ao lado de ossos de animais (essencialmente antílope Saiga, raposas e lebres), ferramentas feitas de pedra talhada e ossos e objetos de adorno como contas perfuradas em marfim de mamute e conchas também perfuradas. Uma abordagem multidisciplinar foi necessária para analisar este sítio, cujo material é rico e variado.

A datação por carbono 14 de um osso humano e de um cervo mostrou que viveram há 32 mil anos, o que faz deste sítio um dos mais antigos já ocupados pelo homem moderno na Europa. Apenas um sítio romeno e um sítio russo são mais velhos (33 mil anos para o russo e 34 mil anos para o romeno), enquanto os sítios da Europa Ocidental são todos mais recentes. Esta descoberta atesta então a hipótese de uma colonização no continente europeu do leste para oeste pelos primeiros humanos anatomicamente modernos. Estes humanos seriam distribuídos na Europa pelas regiões do sudeste oriental fronteiriças com o mar Negro desde o Oriente Médio.

Os ossos humanos descobertos no abrigo pertencem a, pelo menos, cinco pessoas: uma criança, dois adolescentes e dois adultos. Há essencialmente peças de crânio, dentes, uma vértebra, fragmentos de costelas e falanges. A ausência de ossos longos, como o fêmur que geralmente é encontrado bem preservado, tem intrigado os investigadores. Além disso, após a morte, os crânios foram separados do resto do corpo, como indicam os vários traços de corte presentes nos ossos. Pelo fato de o tratamento de restos de ossos ser diferente em homens e animais, os investigadores acreditam que não se trata de canibalismo nutricional, mas sim de um ritual de post-mortem. Eles avançam várias hipóteses no quadro de práticas funerárias, quer seja de um canibalismo ritual ou de uma desarticulação do corpo após a morte a fim de depositar uma parte em outro local. São os vestígios mais antigos de corte observados em ossos de homens modernos na Europa.